quarta-feira, 22 de abril de 2020

Doria X Bolsonaro: anatomia do confronto, oportunismo e obsessão homicida


João Doria e Jair Bolsonaro: existe um confronto, sim, mas não um empate de oportunismos, como querem alguns. Um deles está com a lógica, com os fatos e com a ciência. E o outro, contra - Reprodução/Redes Sociais e Marcos Corrêa/PR
João Doria e Jair Bolsonaro: existe um confronto, sim, mas não um empate de oportunismos, como querem alguns. Um deles está com a lógica, com os fatos e com a ciência. E o outro, contra.

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), concede uma entrevista à edição desta quarta da Folha que certamente vai fazer disparar o "odiômetro" de baba das falanges bolsonaristas nas redes sociais. Leiam. A íntegra está aqui. Destaco alguns pequenos trechos e volto em seguida.

Doria está arrependido de ter votado em Jair Bolsonaro?
"Sim. Fiz campanha me posicionando contra esquerda, o PT. O outro candidato era Jair Bolsonaro. Por ser candidato, eu tinha que ter um lado, que não poderia ser o do nulo ou em branco. Nunca fiz isso. Mas não tinha a perspectiva de ter um presidente que pudesse vir a ter comportamentos tão irresponsáveis, tão distantes da verdade, tão condenáveis sobretudo numa situação de pandemia como essa" 

Ele e Lula publicaram mensagens nas redes sociais mutuamente civilizadas, depois dos duros embates de 2018. Teme por seu futuro eleitoral?
"Não estou preocupado com 2022. Estou preocupado em salvar vidas, e, na sequência, recuperar a economia. Não há sentido político, eleitoral, ideológico no que tenho feito, e tenho certeza que os que estão no caminho certo têm este sentimento."

O que pensa das manifestações em favor do golpe e do fechamento do Congresso e do Supremo? Pretende reprimi-las?
"Entendo que, ainda que sejam condenáveis, do ponto de vista de serem inconstitucionais e até repugnantes (...). a manifestação é de livre direito de quem quer se manifestar. Desde que não seja uma autoridade pública, evidentemente. Uma autoridade pública com mandato não deve se pronunciar em circunstâncias como essa, ferindo a Constituição. Aqueles que se manifestam, vejo com tristeza. (...) Esse é um posicionamento que pode levar o Brasil às trevas. Mas entendo que a maioria não pensa assim. Críticas podem existir, mas dentro do processo democrático."

Como será a realidade pós-coronavírus?
"Governos e instituições públicas terão de ser mais solidários e presentes no atendimento aos desfavorecidos, aos mais pobres, àqueles que precisam efetivamente da presença do Estado. A pandemia expôs de forma mais aguda e chocante a dificuldade da pobreza de enfrentar não só a fome mas a doença. A morte chega mais perto daqueles que estão à margem da sociedade."

RETOMO
Há muita gente, até amigos meus, que avalia que o governador decidiu pegar uma carona na crise. Vamos ver. O fundo das consciências, para um crente como eu, a Deus pertence. E eu não sou Deus. Cada um que se entenda com o divino. Eu me interesso pelos atos e palavras de homens públicos. Quando, na campanha eleitoral, o agora governador afirmou coisa que considerei detestáveis, eu o critiquei com dureza.

Ocorre que a tese de que ele resolveu ser oportunista na crise é insustentável segundo
- a lógica;
- a ciência;
- os fatos.

A LÓGICA
Comecemos pela lógica, terreno que mais me seduz. Digamos que estivéssemos realmente num jogo em que vários aspirantes à condição de Número Um da República disputassem terreno. O governador de São Paulo não atua sozinho, segundo critérios que estão nas sombras e que sejam desconhecidos do público, sendo necessário atravessar umbrais de mistérios para chegar à essência daquilo que deseja. Isso é uma fantasia.

Ele é governador de São Paulo. Embora há muito a história não seja generosa com pretendentes paulistas à Presidência, quem ocupa os Bandeirantes é sempre candidato natural ao cargo. O Estado tem 45 milhões de habitantes e representa mais de 30% do PIB. Mesmo em alguém sem apetite, tal condição despertaria a fome. Não é o caso de Doria. Tem, sim, o tal apetite pelo poder. E não escrevo isso como quem aponta um defeito.

No que há de jogo nisso tudo, convém considerar que não joga sozinho. Há outros possíveis postulantes, muito especialmente aquele que deseja renovar o seu mandato. Ora, é o comportamento de Bolsonaro que determina o de Doria? Talvez a inversa tenha alguma verdade. Como a capacidade de odiar de Bolsonaro parece ser maior do que ele mesmo pode abrigar — daí a sua cara permanentemente maldormida, remoendo mais pequenos do que grande problemas —, fica-se com a impressão, às vezes, de que adota comportamentos inaceitáveis apenas para contrastar com aquele que ele já elegeu como seu oponente principal.

Doria, com efeito, saiu na frente nas medidas de restrição à circulação e na busca de recursos para combater o coronavírus, em consonância, note-se, com o Ministério da Saúde — e ninguém poderia apostar no começo da crise que o presidente fosse rifar Luiz Henrique Mandetta — e com a Organização Mundial da Saúde. São Paulo ergueu os hospitais de campanha antes dos outros Estados e bem antes do governo federal.

Convenham: o governador não tinha como saber que Bolsonaro iria se juntar aos ditadores da Nicarágua, do Turcomenistão e da Belarus. Se o presidente da República — a quem o Congresso tudo deu para enfrentar a crise — tivesse um comportamento moderadamente civilizado (notem que bastaria um moderadamente...), Doria seria menos protagonista na crise. 

Alguém é capaz de dizer por que diabos Bolsonaro resolveu se opor aos governadores, à Organização Mundial da Saúde e a seu próprio Ministério da Saúde? Ora, Doria pode responder por suas escolhas, mas não pode responder pelas escolhas de Bolsonaro. Não foi o governador que empurrou o presidente para o negacionismo. Este escolheu por conta própria esse lugar absurdo de fala.

Doria só passa a impressão de que tenta liderar a nação em lugar de Bolsonaro porque este, efetivamente, decidiu se comportar como líder de uma facção.

A CIÊNCIA
No que diz respeito ao coronavírus, a mim me importa indagar qual dos dois toma decisões no terreno sanitário, propriamente médico e, sim, também econômico que estejam afinadas com a ciência. Quem dá amparo técnico às teses de Bolsonaro, além de meia-dúzia de lunáticos? Todos os que ensaiaram voos teóricos alternativos foram desmoralizados pelas evidências, pelos números, pelo vírus.

Bolsonaro empurrou o governador de São Paulo para o lugar de resistência àquilo que, não fossem, quero crer, interesses bem mais mesquinhos, mereceria ser qualificado de sociopatia, com veios de psicopatia. Todas as antevisões do "Mito" sobre o coronavírus falharam, mostraram-se falsas, irresponsáveis.

Pior: elas se fizeram acompanhar de declarações que evidenciaram um líder incapaz de sentir aquele mínimo de empatia que nos confere a condição de humanos. Jamais podemos esquecer de que o presidente, ao sustentar a tese de que a Covid-19 era uma doença de idosos, especulou sobre a morte da própria mãe, de 92 anos, como quem disse um "Ah, hoje é quarta-feira e faz frio". Como é mesmo a sua frase mais eloquente sobre a crise? Lembrei: "Todo mundo vai morrer um dia". A afirmação embutia uma indagação silenciosa: "Por que não já?"

Ora, convenham: com os instrumentos que detém e com as licenças que o Parlamento vai lhe conferir, poderia ser o líder de uma grande cruzada de resistência à doença. A economia não estaria nem melhor nem pior. Mas o país não teria de enfrentar ameaças golpistas em meio à pandemia.

OS FATOS
A ciência desmoraliza as teses de Bolsonaro. Os fatos também. Já sugeri que se candidate a uma vaga de coveiro em Manaus para entender como é a vida. Para entender como é a morte. O país mal conhece o próprio horror que está sendo produzido porque não dispõe de números. A ampla testagem ainda não aconteceu. Uma amostra do que está em curso é fornecida por Brasília. O diabo é mais feio do que se pinta.

Bolsonaro preferiu falar à sua grei, num cálculo até óbvio. As mortes virão, e ele — O VERDADEIRO OPORTUNISTA — quer se livrar desde já da sombra de qualquer responsabilidade. Virão os mortos, e a pobreza vai aumentar, com uma recessão certa e brutal. Seu objetivo mais do que escancarado, imoral e aético é jogar a responsabilidade pela crise nas costas dos governadores.

Intuiu certamente que a maioria deles não concordaria em mandar a população para o matadouro. Então inventou um lugar de fala em que nega a gravidade da crise — na contramão, hoje em dia ao menos, até de Donald Trump, que assiste ao açougue macabro de seu próprio negacionismo nos EUA. Ao negar, espera que os chefes dos Executivos estaduais façam a coisa certa — e, na média, estão fazendo. Sendo assim, o desastre será amansado pelas medidas de distanciamento social, e a ele resta o papel de apontar o dedo contra eventuais futuros adversário e acusar: "Vocês são os culpados pela recessão e pelo desemprego".

Notem, reitero, que ele próprio poderia ter liderado os esforços de distanciamento social. Não seria difícil explicar que, afinal, não é o culpado por ter o vírus chegado ao Brasil. Mas aí Bolsonaro teria de ser outra pessoa. Isso requer a grandeza de um líder que saiba administrar a dificuldade, que empatize com o seu povo, que tenha um cuidado genuíno com os pobres. Não é o seu caso.

PARTINDO PARA A CONCLUSÃO
Sei lá se Doria se credencia especialmente para a disputar a Presidência. Credenciado já estava porque essa era já uma condição imanente ao cargo. O que dá para afirmar de certo é que os mesmos setores da elite econômica que pressionam Bolsonaro em favor da volta à normalidade -- e boa parte desses valentes não tem a coragem de mostrar a cara porque sabe que o presidente cumprirá esse triste papel -- também pressionam Doria.

Aliás, sejamos precisos: mais o governador de São Paulo era interlocutor dessa turma do que Bolsonaro, que, em matéria de, digamos, "empreendedorismo", entendia-se mesmo era com seus "parças" da Zona Oeste do Rio, não é mesmo, Fabrício Queiroz?

O presidente, por escolha sua, resolveu ser boneco de ventríloquo dessa fatia não muito iluminada e iluminista do capital. Não disse com estas palavras, mas rondou o abismo moral e ético: "É claro que mais gente vai morrer, mas a economia não pode parar". Acreditem: mais Doria contrariou interlocutores históricos do que Bolsonaro. E, ao fazê-lo, fez a escolha moral e ética.

Ah, sim: tenho divergências que não são pequenas com o governador em muita coisa. No caso do combate ao coranavírus? Aí, não. Aí ele fez a coisa certa. E eu aplaudo quem acerta. E vaio quem põe a vida alheia em risco. 

Oportunista é criar uma economia da morte segundo um entendimento do que vai ser a disputa eleitoral de 2022.

Ter a coragem de parar parte do "São Paulo que não para" com o objetivo de fazer com que menos pessoas morram, mesmo contrariando interesses, é um ato de coragem.

Se isso rende ou não votos para a Presidência, pouco me importa. Não sou político. Não disputo o poder. Não sou esbirro de quem disputa. Desde sempre e para sempre, quando concordo, digo "sim"; quando discordo, digo "não". E não há quem possa me forçar a fazer o contrário. 

Se Bolsonaro, um dia, escolher a coisa certa, irei elogiá-lo. Posso até não gostar de fazê-lo, mas meu compromisso é com a lógica, com a ciência, com os fatos, com quem me lê, com quem me ouve, com quem me vê.

Por Reinaldo Azevedo

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