quarta-feira, 3 de março de 2021

Guedes: Desventuras de um país sob o comando do louco e do equilibrista


Inri Cristo: eis um bom candidato a ministro da Economia. Ele também só quer o bem Imagem: Reprodução

Paulo Guedes já passou a falar a linguagem dos profetas. Se o Brasil seguir o caminho que ele aponta, então há a salvação; se não, então não; aí é danação. Inri Cristo diz a mesma coisa. É impressionante que, no terceiro ano de governo, ele não tenha nem mesmo trocado as metáforas escatológicas.

O homem deu entrevista ao podcast "PrimoCast", liderado por Thiago Nigro, que tem o canal "O Primo Rico". Ele é autor de um livro intitulado "Do Mil ao Milhão". Ele dá dicas importantes como "gastar bem, investir melhor e ganhar mais". A receita parece infalível. Como Guedes.

Você prefere uma injeção de pimenta no olho ou um Chicabon num dia de calor? Escolha rápido. É a pergunta que Guedes fez na tal conversa, alterados os termos da troca, mas mantida a estrutura do pensamento. Indagou ele:
"Você prefere juro baixo, muito investimento, emprego, renda, Bolsa subindo, todo mundo ganhando, estourando champanhe, um país da prosperidade, ou prefere ir para a Venezuela?".

Ah, eu prefiro o Chicabon num dia de calor. E você, leitor amigo?

Mas como eu faço para ter acesso a essas maravilhas, primícias do Paraíso?

Bem, há que se seguir o profeta — no caso, ele próprio, Paulo Guedes.

Esse mundo que se descortina à nossa frente é prima-irmã do R$ 1 trilhão das privatizações logo no primeiro ano e irmã gêmea do déficit zero.

O Brasil pode ser uma Venezuela? Mas, afinal de contas, quem seria o Hugo Chávez da brincadeira? Jair Bolsonaro, o seu chefe? Aquele país e governado por uma vertente do esquerdismo ensandecido? No Brasil, a venezuelização se daria por intermédio do direitismo tarado?

O profeta está virando o mestre do equilibrismo. Afirmou sobre a Petrobras:
"Tem uma turma que começa: 'o petróleo é nosso'. É nosso? Então dá para a gente. Vamos dar para o povo brasileiro. Vamos pegar os dividendos da Petrobras e entregar uma parte para o povo brasileiro. Ou paga dividendos ou vende e dá dinheiro para eles. O que não pode é ficar gerando prejuízo para eles".

A manifestação mais recente que teve como lema "o petróleo é nosso" partiu do presidente Jair Bolsonaro. Ele está criticando o chefe? Não dá para saber porque a fala também pode sugerir que o ministro é favorável a algo parecido com a privatização da empresa. Mas isso igualmente não está claro.

Afinal de contas, quando evocou a memória da antiga campanha de Monteiro Lobato — duvido que soubesse o que dizia —, Bolsonaro demonizou Roberto Castello Branco presidente da empresa com a seguinte indagação: "O petróleo é nosso ou é de um pequeno grupo no Brasil?"

Observem que a fala de Guedes também atende a esse arroubo retórico do seu chefe. Nome da música: "O Louco e o Equilibrista".

Fato: se a Petrobras fosse privada, Bolsonaro não teria conseguido derrubar o presidente da empresa, certo?

A propósito: como é que o chefe da nação, com o apoio passivo de Guedes, interferiu no preço dos combustíveis? Aumentando a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido dos bancos, acabando o Regime Especial da Indústria Química na área tributária e cortando a isenção de IPI de carros acima de R$ 70 mil para pessoas com deficiência.

Resolvida a questão? Não! A isenção de PIS-Cofins no diesel vale apenas para março e abril. Depois acaba. Ora, como é que a demanda dos caminhoneiros — ou que o governo diz ser dos caminhoneiros — continuará a ser atendida a partir de maio? Até lá, a Petrobras já estará sob nova direção. Até agora, a sugestão é a de que haverá intervenção no preço do petróleo.

Guedes gosta de ameaçar com o fantasma da Venezuela não é de hoje. Obrigo-me a lembrar que, tivesse o Congresso ouvido a sua orientação, o auxílio emergencial no ano passado teria se resumido a três parcelas de R$ 200 para os informais. Os trabalhadores iriam para a casa com o salário suspenso. Foi o Congresso que criou o auxílio emergencial e deu concretude às medidas para enfrentar a crise.

Tivesse ficado tudo por conta de Guedes, a Venezuela pareceria um paraíso. Teria sido Maduro a dizer: "Precisamos tomar cuidado para não virar um Brasil".

Por Reinaldo Azevedo

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