segunda-feira, 8 de março de 2021

Governadores se unem ante tsunami de mortos e negacionismo de Bolsonaro


Covas reservadas para mortos de Covid-19 no cemitério Santo Antônio, em Porto Velho. Marcos Rocha, de Rondônia, é um dos seis governadores que não integram esforço comum dos outros 21 para enfrentar tsunami de doentes e mortes Imagem: Foto: Armando Júnior

Os chefes dos Executivos estaduais estão pensando em ressuscitar uma forma muito particular de "Política dos Governadores", só que, desta feita, seria um, digamos, "acordo do bem", em favor da vida, e não o compadrio que marcou a República Velha, em que coronéis nos Estados asseguravam o apoio ao governo central desde que este não bulisse com os Estados. Não! Desta feita, os senhores governadores adotariam políticas conjuntas de enfrentamento à Covid-19 para sobreviver ao poder de destruição de Jair Bolsonaro.

Os governadores tentariam adotar, nos próximos tempos, não está definida a duração, ações comuns de distanciamento social e de restrição a determinadas atividades buscando frear a escalada da doença, que assume patamares que já hoje conduzem o sistema de Saúde ao caos.

O esforço é fazer com que as medidas sejam, tanto quanto possível, uniformes para que nenhum deles arque com o peso de adotar ações mais severas, tendo de enfrentar a máquina de moer reputações movida pelo governo federal nas redes sociais. Na liderança da depredação, como se sabe, está ninguém menos do que Jair Bolsonaro.

No sábado e no domingo, por exemplo, o governo do Mato Grosso emitiu um alerta aos demais Estados em busca de leitos de UTI, mas não obteve resposta. As demais unidades da Federação não puderam atender ao chamado porque não há mais entes federados com vagas disponíveis para atender à demanda emergencial dos demais. Chegamos ao temido ponto do colapso generalizado.

Nada menos de 21 dos 27 governadores, independentemente das bandeiras partidárias — alguns são aliados políticos de Bolsonaro — concordam em anunciar ações conjuntas. E procurarão, na medida do possível, amparar uns aos outros.

Participam da iniciativa os nove governadores do Nordeste; os três do Sul; os quatro do Sudeste; três dos quatro do Centro-Oeste e dois dos Estados do Norte.

No Centro-Oeste, por ora, não integra o esforço dos colegas, mais uma vez, o tucano Reinaldo Azambuja, do Mato Grosso do Sul, embora o Estado viva uma situação dramática. Na Região Norte, excluem-se, até agora, do entendimento Mauro Carlesse (DEM), de Tocantins; Gladson Cameli (PP), do Acre; Waldez Goes (PDT), do Amapá; Antonio Denarium (PSL), de Roraima, e Marcos Rocha (PSL), de Rondônia.

Juntos, esses recalcitrantes governam estimados 8,62 milhões de pessoas — apenas 4,1% da população. Se for mesmo possível um alinhamento entre os chefes dos Executivos estaduais, estamos falando de 96% dos brasileiros.

As unidades da federação que não aderiram até agora a esse esforço de entendimento dependem visceralmente de verbas federais para tocar o dia a dia da administração. A exceção aí é Reinaldo Azambuja, do PSDB. O caso aí é outro: sua filiação ao PSDB, hoje, é a dado menos relevante de sua atuação política. Disputa o posto de governador mais fiel a Bolsonaro.

A iniciativa dos governadores é desesperada, mas é, por óbvio, bem-vinda. É preciso que algum entendimento entre os chefes dos Executivos estaduais substitua aquilo que desapareceu de vez: um governo federal.

Hoje, a iniciativa da União, em acordo com o Congresso, limita-se ao pagamento do auxílio emergencial — quando for reiniciado — e na distribuição, nem sempre eficaz, das poucas doses existentes de vacinas. Também nesse particular os governadores e prefeitos se lançam, digamos assim, no mercado em busca de imunizantes. O Supremo fez a sua parte autorizando a compra — se e quando doses à venda.

O país entra no que todos os especialistas consideram o olho do furacão da doença e se esperam novas e extremadas cenas dantescas no sistema público de Saúde — também a rede privada de atendimento ronda o colapso.

Os governadores se deram conta de que Bolsonaro não vai mudar nem discurso nem prática. Ele continuará no seu esforço de jogá-los contra a opinião pública, insistindo numa volta à normalidade que levaria o caos, ainda hoje restrito aos hospitais, para as ruas.

Ou eles assumem, na prática, o governo do país, ou mergulharemos na anomia e na desordem.

Segundo os números oficiais, o Brasil registrou ontem 1.086 mortes por Covid-19 em 24 horas, recorde para um domingo, e 80.508 novos contaminados, a segunda marca desde o início da pandemia, perdendo apenas para 7 de janeiro, uma quinta-feira: 87.843.

O que vem pela frente promete assombrar o país e o mundo.

Por Reinaldo Azevedo

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