terça-feira, 24 de setembro de 2019

Bolsonaro na ONU daqui a pouco: consta que fará fala de conciliação. Será?


Bolsonaro chega a Nova York usando um colar indígena: ambientalista?

O presidente Jair Bolsonaro discursa logo mais na abertura da Assembleia Geral da ONU. O que circula nos corredores é que vai defender a soberania do Brasil sobre a parte que lhe cabe na Amazônia, pregar o desenvolvimento sustentável na região e evidenciar que o Brasil é, sim, um país que se preocupa com o meio ambiente. Vamos ver.

Os ingredientes permitem fazer tanto um bom como um mau discurso. Se, ao tratar da soberania, ignorar que o interesse do mundo pela Amazônia é legítimo, avançando para a conversa de "o território é nosso e nele a gente faz o que quer", as coisas se complicam. Se deixar claro que o Brasil entende a preocupação, aceita o diálogo, mas rejeita ingerência e imposições, então se pode chegar a um bom lugar.

Consta que o presidente procurará evitar a linguagem do conflito. A ver. 

Os antecedentes não são bons. O discurso foi pensado num grupo muito restrito, que inclui o chanceler Ernesto Araújo, que antes foi se encontrar com o Steve Bannon; o general Augusto Heleno (GSI); o secretário para assuntos internacionais da Presidência, Filipe Martins, e o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que aproveita a viagem para mais um encontro com o prosélito da extrema-direita populista dos EUA.

Não é o elenco dos sonhos em matéria de moderação. Exceção feita a Heleno — que tem sobre a Amazônia, vamos dizer, a visão média dos militares brasileiros: "É nossa, e não aceitamos ingerência estrangeira" —, os outros todos se querem teóricos do "antiglobalismo", de inspiração olavista (discípulos de Olavo de Carvalho). Se o que essa gente realmente pensa for dito na abertura da Assembleia Geral da ONU, estamos fritos.

Em razão das tensões criadas por fricções ideológicas inúteis — segundo as quais a defesa do meio ambiente é só um instrumento em favor do "comunismo"!!! — e das queimadas, que puseram o mundo em polvorosa, a fala de hoje é a mais importante de um presidente brasileiro em muitos anos. 

O desejável seria que a fala de Bolsonaro marcasse um ponto de inflexão na sequência de desastres que tem sido o discurso e a prática ambientais do governo federal. 

Tenho alguma esperança de que possa ser assim? 

Para ser franco, não!

Por Reinaldo Azevedo

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