sábado, 29 de fevereiro de 2020

Planalto vira puxadinho das redes sociais do capitão


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Há dois Bolsonaros na praça. O primeiro personifica a nova política, combate as notícias falsas e cultua um versículo do Evangelho de João: "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará". O segundo é muito parecido com o outro, só que mente um pouco. 

Na sua penúltima transmissão ao vivo pela internet, na noite de quinta-feira, o presidente mentiu sobre os vídeos que trombeteou dias atrás pelo WhatsApp para colocar o asfalto contra o Congresso. Ele disse que os vídeos que divulgou referiam-se a uma convocação de 2015. 

O problema é que as peças exibem a facada da campanha de 2018 e a posse de 1º de janeiro de 2019. 

Bolsonaro intercalou durante a transmissão uma irritação ensaiada com a imprensa e uma certa hipocrisia assumida. Coisa de quem sabe que seu enredo, embora não sobreviva a um detector de mentiras, agrada aos devotos que ainda o idolatram a ponto de chamá-lo de mito e integrar a milícia bolsonarista que percorre a internet disposta a tudo, inclusive a atacar com a munição falsa jornalistas que publicam verdades, como Vera Magalhães fez no caso dos vídeos em questão.

O presidente dispõe de porta-voz apenas no papel. Ele preside o país enfeitiçado pela ideia de manter, durante todo o mandato, a mesma comunicação direta que o conectou com seus eleitores. Bolsonaro transformou o Planalto num puxadinho de suas redes sociais. Macaqueia Donald Trump, que fez o mesmo com a Casa Branca. 

Nenhum problema em empurrar a comunicação oficial do presidente para a plataforma virtual. Mas isso não dá a Bolsonaro o direito de agir como um blogueirinho irresponsável, que imagina dispor de salvo-conduto para mentir.

Pesquisa divulgada pelo Datafolha em dezembro revelou que a maioria do eleitorado (80%) ouve Bolsonaro com a pulga atrás da orelha —43% nunca confiam naquilo que o presidente declara, 37% confiam só de vez em quando.

Apenas uma minoria (19%) confia integralmente no que Bolsonaro diz. Ou seja: o presidente acha que é uma coisa e vai se tornando outra coisa bem distinta. Bolsonaro talvez devesse observar pelo menos um velho ensinamento da política: jamais diga uma mentira que não possa provar.

Por Josias de Souza

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