
Leio no Painel, da Folha, a seguinte informação:
"Soou como tiro de alerta entre procuradores e juízes o telefonema, revelado pela Folha, nesta segunda (7), em que Marco Aurélio Canal, um dos auditores da Receita presos pela Lava Jato do Rio, disse ter distribuído cópias de processos atrelados à operação a interlocutores. Investigadores familiarizados com o caso lembram que, quando a conversa chegou a eles, ainda durante a apuração, ela foi interpretada como tentativa de intimidação. Encarcerando-o, a força-tarefa dobrou a aposta."
Vamos ver aposta em quê.
Creio que os defensores do "pega-pra-capar" do lava-jatismo têm material de sobra para refletir, não é mesmo?
Em que ambiente prospera um Marco Aurélio Canal? Ora, naquele em que não existem leis ou regras.
Eu estou enganado — e eu não estou! —, ou Deltan Dallagnol, em conversa com seus parceiros de folguedos, afirmou que iria pedir para uma fonte sua na Receita informações sobre a vida fiscal de familiares de ministros do Supremo?
Qual fonte?
Não é impressionante que, até hoje, este rapaz não tenha tido de responder a isso e por isso?
Flertar com os métodos ilegais da Lava Jato corresponde, senhores políticos e senhores juízes, a pôr uma corda no próprio pescoço.
Penso, por exemplo, naqueles bravos senadores que arrotam por aí a CPI da Lava Toga. Fiquemos com o decano da turma, o senador Álvaro Dias (Podemos-PR). Nem sempre uma força-tarefa será de Curitiba. Nem sempre será tão generosa com um conterrâneo.
Por óbvio, não é por medo do que se fez que se deve defender que a investigação siga a trilha do estado de direito. É sobretudo por medo daquilo que não se fez.
Quando se outorga a mulheres e homens de Estado a licença de agir ao arrepio da lei, eles se transformam num poder. E se impõem, ora vejam!, ao arrepio da lei a depender de seus interesses e de sua inclinação política.
As leis existem, nas democracias, justamente para conter esses apetites.
Sabe por que Canal fez o que fez? Porque lhe davam o poder para fazer o que fazia.
Se um dos achacados não tivesse corrido o risco de denunciá-lo, ele continuaria a assaltar as suas vítimas.
Mas esse é o tipo de larápio que se combate com razoável facilidade.
Difícil mesmo é enfrentar os ladrões de instituições. Afinal, eles falam em nome da moralidade, dos bons costumes e do combate à corrupção.
"Ah, então todos que fazem esse discurso são ladrões de instituições"? Não!
Mas todos os ladrões de instituições fazem esse discurso.
São poucos os asnos a defender o Estado policial que não se tornam vítimas de sua própria concepção de mundo. Fosse só por eles, vá lá: que experimentassem do próprio remédio como lição e moral da história. O diabo que tal remédio costuma ser ministrado também aos outros.
Por Reinaldo Azevedo
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