terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Morre o guru bolsonarista Olavo de Carvalho, nos EUA, aos 74 anos



O escritor bolsonarista Olavo de Carvalho faleceu, aos 74 anos, na noite de 24 de janeiro. A notícia da morte foi comunicada pela família nas redes sociais do autor. Segundo a postagem no Twitter, o guru da família Bolsonaro estava hospitalizado na região de Richmond, no estado da Virgínia (EUA).

Olavo de Carvalho foi diagnosticado com Covid-19 em 16 de janeiro. Oficialmente, porém, a causa da morte ainda não foi divulgada.

Em seu perfil, também no Twitter, o presidente Jair Bolsonaro lamentou a morte: "Nos deixa hoje um dos maiores pensadores da história do nosso país, o Filósofo e Professor Olavo Luiz Pimentel de Carvalho. Olavo foi um gigante na luta pela liberdade e um farol para milhões de brasileiros. Seu exemplo e seus ensinamentos nos marcarão para sempre", escreveu.

Em julho do ano passado, o escritor - ferrenho crítico às universidades públicas brasileiras - havia sido internado às pressas no Instituto do Coração, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (InCor), em São Paulo.

Naquela ocasião, foi submetido a uma cirurgia renal (um mês antes, Olavo tinha operado um câncer na bexiga, nos EUA). Depois de receber alta, teve novas complicações e passou mais de quatro meses internado na clínica Saint Marie, na Zona Sul da capital paulista.

No dia 9 de novembro, ainda internado, Olavo recebeu uma intimação para depor no inquérito sobre a existência de milícias digitais. No dia seguinte, ele fugiu da clínica e, no dia 13 de novembro, voltou para os Estados Unidos.

Olavo de Carvalho, que nasceu em Campinas, interior de SP, em 1947, era cardiopata e portador da Doença de Lyme, infecção transmitida por carrapatos. Autointitulado professor de filosofia e apoiador do conservadorismo, o escritor deixa a esposa, Roxane, oito filhos e 18 netos.

Em O Globo

Orçamento trata o bolso do contribuinte como um portão da Casa da Mãe Joana



Primeiro a boa notícia: Bolsonaro sancionou o Orçamento federal. Eliminaram-se as dúvidas sobre como será gasto em 2022 o dinheiro arrancado do bolso do contribuinte. Agora uma notícia ruim: o Orçamento acorrentou o Tesouro Nacional a um varejão que inclui as seguintes pechinchas: R$ 4,9 bilhões para os políticos gastarem nas suas próprias campanhas; R$ 35 bilhões para os parlamentares despejarem nos seus redutos eleitorais, sendo R$ 16,5 bilhões por meio de emendas que ocultam os nomes dos beneficiários; e R$ 1,7 bilhão para Bolsonaro manter no forno a má ideia de mimar a Polícia Federal com um reajuste salarial fora da curva.

Finalmente, a péssima notícia: mantiveram-se intactos os gastos eleitoreiros, paroquiais e corporativos que levaram Executivo e Legislativo a tratar o bolso dos contribuintes como se fosse o portão de acesso à Casa da Mãe Joana, mas foram passados na lâmina verbas destinadas a áreas como Trabalho, Educação, Saúde, INSS, pesquisa científica, proteção social e assistência aos índios e quilombolas. Perdeu-se de vista a noção de que, ainda submetido aos rigores da pandemia, o país precisaria reforçar o sistema de saúde, apostar na pesquisa cientifica, oferecer suporte a estudantes que desaprenderam e investir na criação de empregos.


Há o argumento de que nada se fez com o Orçamento atual que os outros já não tivessem feito. Essa desculpa escamoteia o fato de que os vícios foram repetidos em escala jamais vista. Antes, os parlamentares mordiam beiradas do Orçamento. Agora, o centrão toma o Planalto de assalto, ocupa a Casa Civil e tem a palavra final sobre a tesoura. Desmoralizou-se o marco fiscal com um calote nas dívidas judiciais. Empurrou-se para dentro do próximo governo uma bomba relógio.

Ironicamente, associaram-se na irresponsabilidade aliados e opositores do governo. Todos se lambuzam no fundão eleitoral. E a maioria se inscreve na planilha do Arthur Lira.

O vencedor da sucessão de 2022, seja ele quem for, chegará ao Planalto infectado pelo pior tipo de ilusão que pode acometer um presidente da República: a ilusão de que preside. Não será fácil recuperar o Orçamento.

Por Josias de Souza

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Brasil morre sob Bolsonaro, e não vai para o céu



Bolsonaro virou uma pessoa invariável. Sempre corresponde aos que não têm nenhum motivo para confiar nele. A notícia de que o presidente cogita preencher uma vaga que será aberta na diretoria da Anvisa em junho com a indicação de um médico negacionista tem um lado positivo. Indica que o índice de insanidade de Bolsonaro não aumentou. Continua nos mesmos 100%.

O lado ruim é a confirmação de que o Brasil virou mesmo um hospício dirigido pelos malucos. O preferido de Bolsonaro para a vaga na agência incumbida de aprovar remédios e vacinas é o médico Hélio Angotti. Exerce no momento a chefia da Secretaria de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde. Sua última decisão relevante foi tomada na sexta-feira.

Angotti enviou à lata de lixo uma diretriz elaborada por médicos e cientistas. Coisa aprovada pela Conitec, comissão ligada à pasta da Saúde. Invalidou-se um trabalho técnico que atesta, com dois anos de atraso, que medicamentos como a hidroxicloroquina são inúteis no tratamento da Covid.

Na nota em que formalizou sua decisão, Hélio Angotti sustentou que hidroxicloroquina e remédios assemelhados são eficazes para tratar a Covid. Acrescentou que a vacina não tem eficácia comprovada no combate ao coronavírus.

A essa altura da crise sanitária, a presença de um personagem assim, tão alucinado, numa secretaria da pasta da Saúde é um atentado à sanidade pública. Mas a presença da maluquice no terceiro escalão do governo se torna banal quando se recorda que acima do secretário negacionista há o ex-médico Queiroga e Bolsonaro, um presidente sem comprovação científica.

Nesse ambiente, a mera cogitação de enfiar o negacionismo de Angotti dentro dos quadros da Anvisa é a confirmação de que Bolsonaro não sofre de insanidade. Ele aproveita cada segundo dela. Tomado pela incapacidade de reação, o Brasil morre aos poucos. E não vai para o céu.

Por Josias de Souza

domingo, 23 de janeiro de 2022

Discutir com idiotas



O advogado Tiago Pavinatto lançou, pela Edições 70, o livro Estética da Estupidez: A Arte da Guerra Contra o Senso Comum. O livro é muito interessante e serve para refletir o momento curioso em que nos encontramos. O autor mistura bom humor, ironia ácida, referências eruditas e lança catapultas sobre a Jerusalém de Brasília e seus Messias.

Comecei refletindo na epígrafe do livro: “Debater com um idiota é perder de maneiras distintas e combinadas. Perde-se tempo. Perde-se a paciência. E se perde o debate propriamente, porque ele só entenderá argumentos idiotas – e, nesse quesito, o imbatível é ele, não você”. (Reinaldo Azevedo).

A primeira reação ao ler o pensamento é sorrir. Ela já contém uma vaidade: se você gostou, há uma chance de não se considerar um idiota. Quem achou bom, naturalmente, imagina-se portador de cidadania plena na ilha da sabedoria e da razão e olha para os limitados com certa xenofobia. O pensamento de Azevedo termina com frase que, diria meu pai, usa de “contundência”. O termo comum para a conclusão, hoje, é “lacradora”. Sim, o adversário é imbatível porque é... idiota. Há certo consolo retórico e psicológico na conclusão.

Despontam questionamentos válidos: a) como saberei, de fato, que não sou um imbecil? A característica básica da falta de inteligência é ser cego sobre suas próprias capacidades; b) se não posso debater com idiotas e não tenho certeza sobre minha pontuação no campo da genialidade, com mais certeza terei dúvidas sobre quem é sábio ao meu redor e, por consequência, digno de debate; c) se eu perco o debate com idiota porque ele é melhor no manejo do argumento ilógico, com um sábio eu perderei porque ele é hábil no uso da razão; logo, perderei sempre?

Eu já dei este conselho em palestra, citando minha avó: “Não toque tambor para maluco dançar”. Li O Alienista de Machado algumas vezes e me dou o direito ao relativismo no campo da sanidade mental. Analisando algumas passagens da minha vida pretérita, eu teria bons motivos para ocupar ampla suíte na Casa Verde do dr. Bacamarte. Itaguaí poderia conter o universo todo.

Sim, fui louco eventual. Continuarei sendo um idiota? Claro, querida leitora e estimado leitor, já ficou claro aqui que temos idiotas insanos e idiotas perfeitamente equilibrados daquele tipo que, em época menos cuidadosa com palavras, chamaríamos de “pessoa normal”. Como é patológico nos dias atuais identificar alguém como normal, digamos que a maioria das ações e pensamentos de alguns idiotas caracteriza um comportamento médio tido por aceitável pela sociedade.

Duas questões afloram: sou um idiota? Devo discutir com idiotas? Sendo a democracia inconciliável com a censura, estaríamos condenados (como pensou Umberto Eco) à fala onipresente do “idiota da aldeia”? A figura descrita por Eco tem base literária: anda, maltrapilho, incomodando pessoas com frases e gestos, todavia todos o tomam por inofensivo. Aliás, o “idiota da aldeia” tem profunda função social: serve para classificar todo o resto da comunidade como inteligente. É fundamental existir, no grupo, o tipo limitado: a sombra da escassez cerebral dele ilumina a inteligência dos outros.

Nos tempos que despertam desejo daquele meteoro devastador como redenção possível, existe a categoria que Pierre Bourdieu chamou de “meio-cientistas”, chave conceitual analisada por Pavinatto na página 175. Fazem eco a algum tema tratado por pesquisadores, misturam a outros, somam certo senso comum com linguagem elaborada e, le voilà, surge um post devastador contra vacinas... O meio-cientista reúne o pior de dois mundos e causa danos aos idiotas da aldeia e aos sábios.

Que futuro terá nossa sociedade se conseguirmos classificar com quem se pode e com quem não se pode debater? Teremos uma Berlim reconstruída com um muro ao meio? Uma nova Guerra Fria?

Eu tenho alguns princípios para tentar conversa séria. O primeiro é concordância sobre ética e lei. Não discuto com racistas ou defensores da violência contra a mulher, por exemplo. É uma derivação do paradoxo de Karl Popper: não tolerar intolerantes: “A tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância”, segundo o austro-britânico.

Há mais condições propícias: a pessoa ouve e fala. A condição de um diálogo é a alternância entre ouvir e falar. Mais uma: existe uma vontade de análise sem fígado, adjetivos, fulanização ou violência verbal. Por fim, os dois lados reconhecem que não são donos absolutos da verdade e o outro tem direito à existência, mesmo que com argumentos contrários.

Na minha concepção, nunca saberemos se somos idiotas ou inteligentes. Porém, o debate com alguns princípios prévios aperfeiçoa meu raciocínio oferecendo o contraditório. Também aumenta minha visão e, eventualmente, muda minha ideia ou a do meu debatedor. Não existem as condições dadas? Melhor ficar de um lado de Berlim que lhe agrade lamentando o limite das pessoas do outro lado do muro. Enquanto isso, leia o livro de Pavinatto e seja feliz. No ano de 2022, os muros serão erguidos a alturas inimagináveis. Esperança média de bons debates...

Por Leandro Karnal

O mal que Lula faz à democracia (Editorial do Estadão)



As sondagens de intenção de voto mostram que parte do eleitorado está se esquecendo de quem é Lula. Convém recordar o que o PT fez em sua passagem pelo poder

Considerando tudo o que o PT fez e deixou de fazer ao longo de seus 40 anos de existência – muito especialmente, no período em que Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff estiveram no Palácio do Planalto –, uma nova candidatura petista à Presidência da República não deveria suscitar entusiasmo na população. A legenda que supostamente seria progressista, ética e renovadora da política percorreu um caminho muito diferente, colecionando casos de corrupção, aparelhamento do Estado, apropriação do público para fins privados e políticas econômicas desastradas.

No entanto, apesar de todo esse passivo, Luiz Inácio Lula da Silva tem aparecido em primeiro lugar nas sondagens de intenção de voto para presidente da República. Às vezes, com margem de vantagem suficiente para a vitória em primeiro turno. Sabe-se que as eleições ainda estão distantes no tempo e na cabeça do eleitor. As pesquisas de agora não se prestam a prever o que vai ocorrer em outubro nas urnas. Há tempo para muitas mudanças. De toda forma, as sondagens revelam um dado importantíssimo: parte do eleitorado está se esquecendo de quem é Lula. Convém, portanto, resgatar essa memória.

Para começar, o líder petista não tem nenhuma credencial para se apresentar como o salvador da democracia. Antes de assumir o governo federal, o PT notabilizou-se por uma oposição absolutamente irresponsável, numa lógica de quanto pior para o País, melhor para Lula. Sem base jurídica, apenas para criar instabilidade, o partido apresentou pedidos de impeachment contra Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Sabotou sistematicamente os projetos apresentados pelo Executivo. Fechada ao diálogo, a legenda de Lula tratava tudo o que viesse do governo federal – rigorosamente tudo: Plano Real, modernização do sistema de telefonia, criação das agências reguladoras ou mesmo propostas de melhoria para a educação pública – como ocasião para criar desgaste.

Depois de chegar ao Palácio do Planalto, o PT continuou sua tradição antidemocrática. Apenas mudou de lado na mesa. São famosos e variados os escândalos de fisiologismo do partido de Lula. O mensalão é caso paradigmático de perversão do regime democrático, com uso de dinheiro público para manipular a representação política.

O petrolão foi ainda mais perverso, ao colocar toda a estrutura do Estado, incluindo estatais e empresas de capital misto, a serviço do interesse eleitoral do partido. Não foi apenas um conjunto de ações para desviar uma enorme quantidade de dinheiro público e privado. Todo o esquema estava orientado a alimentar a máquina eleitoral de Lula.

Também nas relações com os grupos políticos divergentes, Lula manteve, uma vez no poder, a mesma trilha antidemocrática. Passou a deslegitimar toda e qualquer oposição ao seu governo, criando uma das mais infames campanhas de incivilidade, intolerância e autoritarismo da história nacional: a do “nós” (os virtuosos petistas) contra “eles” (todos os que não aceitam Lula como seu salvador). O País segue ainda padecendo diariamente dessa irresponsável divisão social, da qual, não por acaso, Lula pretende extrair os votos para voltar à Presidência.

A atuação antidemocrática de Lula continuou após a saída do PT do governo federal. Nos últimos anos, o líder petista dedicou-se a desmoralizar, perante o mundo, o Estado Democrático de Direito brasileiro. Em vez de uma defesa técnica nas várias ações penais em que se viu envolvido, Lula promoveu verdadeira campanha difamatória contra o Judiciário, sugerindo que, por trás de cada condenação, mesmo colegiada e amplamente baseada em provas, havia uma conspiração (internacional!) para prejudicá-lo. A decisão do Supremo sobre a incompetência de determinado juízo, que libertou Lula, não torna menos grave o comportamento do ex-presidente e do PT. Ao se apresentar como perseguido político, Lula deixa claro que não acredita nas instituições democráticas do País.

Depois do ambiente de ameaças e de ataques à democracia criado pelo bolsonarismo – a exigir uma resposta responsável dos partidos e dos eleitores –, parece piada de mau gosto com o País pensar no PT como eventual solução. Lula nunca tratou bem a democracia brasileira.

sábado, 22 de janeiro de 2022

Ministério da Saúde defende hidroxicloroquina e diz que vacina não funciona


Profissional de saúde com embalagens de sulfato de hidroxicloroquina, azitromicina e
difosfato de cloroquina - Ueslei Marcelino - 5.jun.20/Reuters

Em documento usado para justificar a rejeição de diretrizes de tratamento da Covid-19 ao SUS, o Ministério da Saúde contraria entidades científicas e afirma que há eficácia e segurança no uso da hidroxicloroquina contra a Covid-19.

Na mesma nota técnica, a pasta declara que as vacinas não demonstram essas características. Os textos arquivados contraindicavam o uso de medicamentos do chamado kit Covid.

A manifestação antivacina foi feita em tabela dentro de documento assinado pelo secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos, Helio Angotti, uma liderança de ala do governo defensora das bandeiras negacionistas do presidente Jair Bolsonaro (PL).

As diretrizes rejeitadas haviam sido elaboradas por especialistas de entidades médicas e científicas e aprovadas pela Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS).

Na mesma tabela, o ministério afirma que a hidroxicloroquina é barata, não tem estudos "predominantemente financiados pela indústria", mas não é recomendada por sociedades médicas. Já a vacina, segundo a pasta, é cara, tem estudos bancados pela indústria e é recomendada por essas entidades.

Esse argumento reforça distorções já levantadas pelo presidente Bolsonaro de que há interesses impróprios na aprovação das vacinas.


A diretora da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) Meiruze de Freitas reagiu à nota da Saúde e disse à Folha que "todas as vacinas autorizadas no Brasil passaram pelos requisitos técnicos mais elevados no campo dos estudos clínicos randomizados (fase I, II e III) e da regulação sanitária".

"Não é esperado e admissível que a ciência, tecnologia e inovação no Brasil estejam na contramão do mundo", afirmou a diretora. "É preciso que todos estejam unidos na mesma direção, ou seja, salvar vidas", completou.

O Ministério da Saúde aponta que não há demonstração de efetividade da vacina "em estudos controlados e randomizados" nem de segurança "em estudos experimentais e observacionais adequados".

Ainda afirma que outros tratamentos contra a Covid não têm resultado, como manobra de prona e ventilação não invasiva. Na tabela, a pasta diz que anticorpos monoclonais funcionam.

Procurados, a assessoria da Saúde e o ministro Marcelo Queiroga ainda não se manifestaram sobre a tabela.

A tabela contradiz declarações oficiais da Saúde. Em nota enviada à Folha na sexta-feira (21), a pasta disse que "a vacinação é segura e foi autorizada pela Anvisa".

Ao assumir o Ministério da Saúde, em março de 2021, Queiroga anunciou que promoveria o debate na Conitec para encerrar a discussão sobre o uso do kit Covid. Ele indicou o médico e professor da USP Carlos Carvalho, contrário aos fármacos ineficazes, para organizar grupo que iria elaborar os pareceres.

Queiroga, porém, modulou o discurso e tem investido em agrados a Bolsonaro para se agarrar ao cargo. Ele passou a evitar o tema, ainda que admita a colegas que não vê benefícios no uso destes medicamentos.

O ministro ainda alterna, em discursos, elogios à compra e entrega das vacinas com acenos à ala bolsonarista que duvida da segurança e eficácia da imunização. Gestores do SUS cobram que Queiroga, além de atuar na compra das doses, faça campanha de estímulo a imunização das crianças.

Nas redes sociais, porém, a Saúde aposta em reforçar que a imunização dos mais jovens é uma decisão dos pais e responsáveis.

Especialistas e sociedades médicas que participaram da elaboração da diretriz preparam um recurso ao ministério para reverter a decisão de rejeitar o texto.

Devem assinar o recurso a Amib (Associação de Medicina Intensiva Brasileira), a SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), a SBPT (Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia) e a AMB (Associação Médica Brasileira).

"Não tem lógica e base técnica nenhuma essa análise [do ministério]", afirma o infectologista Julio Croda, pesquisador da Fiocruz e professor da UFMS (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul). "Mostra claramente que é uma decisão política [rejeitar a diretriz] e não técnica".

"Já passou do ato de autonomia médica para algo criminoso, de indução do uso de medicações sem nenhuma comprovação científica", disse ainda Croda.


Professor da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, Luis Correia disse que a tabela da Saúde é "caricatural". Ele afirma que a nota seleciona estudos de má qualidade para afirmar que a hidroxicloroquina é segura e eficaz contra a Covid.

"É simplório ainda dizer que o custo da vacina é alto e da hidroxicloroquina, baixo. A vacina é muito custo-efetiva, faz com que a pandemia diminua. É um investimento vantajoso. Hidroxicloroquina não resolve a pandemia", disse Correia, que também representa o Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) na Conitec.

Angotti também questionou, na nota da Saúde, a metodologia utilizada pelos especialistas, o rigor técnico dos estudos e até mesmo possíveis conflitos de interesse do grupo.

O secretário rejeitou três capítulos da diretriz hospitalar da Covid, todos aprovados por unanimidade na Conitec. Além disso, arquivou o texto sobre tratamento ambulatorial, aprovado por sete a seis no mesmo colegiado.

" Essas vacinas que são alvos de ataque por parte do secretário estão autorizadas em todas as agências do mundo", disse Nelson Mussolini, presidente-executivo do Sindusfarma (Sindicato da Indústria dos Produtos Farmacêuticos).

"Todos os estudos são patrocinados pelo detentor da patente", afirmou ainda, sobre menção do ministério ao patrocínio da indústria às pesquisas sobre vacina. Mussolini é membro da Conitec como representante do CNS (Conselho Nacional de Saúde).

Em movimento liderado pelo secretário, o governo tentou boicotar o debate da Conitec. Agora, o mesmo grupo quer retirar do comando da comissão a servidora Vania Canuto, que votou a favor do texto que contraindica a hidroxicloroquina, entre outros medicamentos.

Na Folha

'Bolsonaro quer sangrar as contas públicas para ganhar votos' (Editorial do Estadão)



Brincando com a Constituição


A destruição dos pilares da Constituição certamente é um dos objetivos do eterno candidato à Presidência Jair Bolsonaro. Há três anos, o País espera que ele assuma as funções de quem chega ao mais alto posto da República e comece, de fato, a governar. O capitão da reserva, porém, insiste em atuar como um vereador que chegou ao cargo por acidente e quer se manter nele a qualquer custo. O preço dos combustíveis, que afeta a maioria dos eleitores, é uma de suas obsessões. Para reduzi-lo à força, a despeito do comprovado fracasso de tentativas anteriores, a ideia genial mais recente é mexer na Constituição. A apoiadores nas redes sociais, Bolsonaro anunciou que negocia com o Congresso zerar as alíquotas de PIS e Cofins sobre gasolina, diesel, etanol e energia para dar um “alívio” aos consumidores.

O custo dessa medida eleitoreira seria de ao menos R$ 57 bilhões para os cofres públicos, quase o dobro dos R$ 30,1 bilhões destinados ao Fundo Nacional da Educação Básica (Fundeb), valor que a União enviará a Estados e municípios neste ano para financiar a educação. A redução no preço dos combustíveis seria pífia, de menos de R$ 0,20 por litro. Na conta de luz, os tributos federais não chegam a 5% na fatura. Um presidente sério e comprometido com o governo jamais cogitaria abrir mão de uma arrecadação desse vulto para conceder um benefício de centavos à população. Mas esse cálculo jamais entrará na planilha de Bolsonaro, na qual a única conta que importa é a dos votos na urna.

Mudar as alíquotas de tributos federais é algo perfeitamente possível de ser feito por lei ou, em alguns casos, decreto. Mas há uma condição: é preciso elevar algum outro imposto para compensar a perda de arrecadação decorrente desse tipo de medida. Esse talvez seja o principal pilar da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), cujo descumprimento implica crime de responsabilidade e, no limite, pode resultar até em impeachment. Isso não representa um empecilho ao modus operandi bolsonarista. Basta driblar a lei inventando uma proposta de emenda à Constituição (PEC). Técnicos da área econômica seriam contrários à ideia, mas, segundo o Estadão, o claudicante ministro da Economia, Paulo Guedes, já deu sinais de que não será um obstáculo, desde que o prometido reajuste dos servidores seja cancelado e o fundo de amortização de preços dos combustíveis não seja criado. É provável que o desmoralizado Guedes perca nos três casos.

A causa da disparada dos combustíveis e da energia é outra. Além da subida do petróleo, que já pressiona os itens no mundo todo, há o efeito da enorme desvalorização do câmbio, causada pela instabilidade gerada pelo próprio governo. Há ainda um mal disfarçado objetivo embutido na PEC: constranger os Estados a reduzir as alíquotas de ICMS sobre os dois itens à custa do esfacelamento da educação, da saúde e da segurança pública. Pela lógica bolsonarista, se o texto passar no Congresso e os Estados não adotarem as medidas, serão os vilões. Se a PEC não for aprovada, o bolsonarismo investirá na vitimização – a ideia segundo a qual o “sistema” não deixa o presidente governar.

As medidas anunciadas por Bolsonaro visam apenas a obter o mínimo de popularidade para não ser derrotado nas eleições já no primeiro turno. Nessa saga em que tudo é válido, a estratégia é transformar em inimigo quem ainda se importa com o País. Se tiver apoio da maioria dos deputados e senadores, a tal PEC elevará o déficit primário para R$ 190 bilhões. Vencidos por um misto de ignorância e prepotência, não sobrou ninguém que tenha a coragem de enfrentar o presidente e dizer que imposto não causa aumento de preços, apenas compõe o valor final de cada produto. Tampouco há quem queira defender a maltratada Constituição de tanta instabilidade. Já foram 113 emendas constitucionais promulgadas desde 1988, das quais 15 sob a administração atual – e estamos apenas em janeiro de 2022. Não se deve ignorar a leviandade e a perenidade com que essas mudanças são aprovadas, legado que sobreviverá ao fim do desgoverno.

Bolsonaro entra em 2022 com o espinho da rachadinha cravado no pé



Bolsonaro soube no final de 2018, antes de ser empossado presidente, que a rachadinha cairia sobre a cabeça do filho Flávio. Desde então, empurra o escândalo para baixo do tapete. Com a ajuda do presidente, o primogênito Flávio Bolsonaro realizou nos tribunais superiores de Brasília os sonhos de todo réu: travou o processo e matou provas. Juridicamente, Flávio esquiva-se da sentença condenatória. Politicamente, condenou-se junto com o pai ao convívio com a suspeição perpétua.

Amigo e ex-assessor de Bolsonaro na campanha de 2018, Waldir Ferraz declarou à revista Veja que a advogada Ana Cristina Valle, ex-mulher do capitão, chefiou um esquema de rachadinha que incluía os gabinetes do próprio Bolsonaro, na Câmara; de Flávio, na Assembléia Legislativa do Rio; e do irmão Carlos, na Câmara municipal carioca. Exceto pelo fato de ter saltado de lábios amigos, a entrevista não injetou novidades no drama do presidente.

Hoje, graças a investigações jornalísticas e do Ministério Público, já se sabe que Bolsonaro comanda uma organização familiar que explorou durante três décadas uma holding da rachadinha com sede no seu gabinete, em Brasília, e filiais nos mandatos dos filhos Flávio e Carlos no Rio. Flávio tentou desqualificar a entrevista do amigo de seu pai. Mas a coisa foi gravada.

Bolsonaro se irrita quando lhe perguntam sobre a origem do dinheiro depositado pelo operador Fabrício Queiroz na conta da primeira-dama Michelle. Chegou a manifestar o desejo de "encher de porrada" a boca de um repórter. Há dois meses, disse que pretende participar de debates presidenciais, desde que não sejam abordados assuntos familiares. Trata-se de uma ilusão. Ou de um pretexto para a fuga.

Há duas alternativas para Bolsonaro: ou providencia argumentos melhores ou abandona a pose de 2018, quando tripudiava da corrupção alheia. Se a entrevista do amigo Waldir serviu para alguma coisa foi para lembrar que Bolsonaro entrou em 2022 com o espinho da rachadinha cravado no pé.

Por Josias de Souza

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Ex-assessor de Bolsonaro confirma rachadinha na família do presidente


Waldir Ferraz - Ruy Baron/.

Um dos amigos mais próximos do capitão, Waldir Ferraz diz que uma ex-mulher do mandatário comandou esquema nos gabinetes de Jair, Flávio e Carlos

Em um sobrado simples em uma rua de terra batida no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, um ateliê de costura improvisado divide espaço com um amontoado de papéis, recortes de jornal e lembranças dos mais de trinta anos de trajetória política de Jair Bolsonaro (PL). Entre roupas para conserto e croquis para a confecção de equipamentos de voo livre, mora, sozinho, o aposentado da Marinha Mercante Waldir Ferraz, 1,88 metro, magérrimo e autointitulado o amigo “Zero Zero” do presidente da República. Jacaré, o apelido que ganhou desde os tempos em que acompanhava o ex-capitão na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, não é um bolsonarista qualquer. Ele é bolsonarista antes de Jair ter entrado para a política, antes de o bolsonarismo ter virado uma ideologia para pelo menos 20% dos brasileiros e antes de os filhos e ex-mulheres terem se tornado um motivo frequente de dor de cabeça para o presidente. A amizade entre os dois começou há mais de três décadas a partir da insatisfação que ambos compartilhavam com os baixos salários pagos aos oficiais. Desde então, só se fortaleceu.

“Ela (Ana Cristina Valle) fez nos três gabinetes. Em Brasília, aqui no Flávio e no Carlos. Ela que fazia, mas quem é que assinava? Quem assinava era ele (Jair Bolsonaro). É batom na cueca.”Waldir Ferraz

Jacaré guarda como relíquias os convites para a primeira posse de Bolsonaro como vereador e para o casamento dele com a primeira-dama, Michelle. Mais importante: mantém intactas a intimidade e a conversa franca com o amigo poderoso. “O tempo todo ele me chama de 71 (corruptela do artigo que define o crime de estelionato), e eu respondo: ‘Eu não sou político, você é que é’.” Pelas mãos do ex-ca­pitão, Jacaré foi contratado para trabalhar nos gabinetes de Bolsonaro na Câmara dos Deputados e de Carlos Bolsonaro na Câmara de Vereadores do Rio — e também recebeu duas condecorações do governo federal, uma delas das mãos do próprio presidente, por “serviços meritórios e virtudes cívicas”. Sem cargo público, ele hoje brilha como expoente do grupo de inteligência particular de Bolsonaro. Diariamente, encaminha, quase sempre antes das 6 horas da manhã, toda sorte de denúncias e suspeitas ao número pessoal do presidente, salvo em sua lista de contatos como JB BR 4. Os dois têm até um código específico para tratar de conspirações e movimentações políticas. “Como tá o clima aí?” é a senha disparada por Bolsonaro, que em seguida recebe informes sobre possíveis apoios para a campanha.


As conversas também são presenciais. Desde a época da transição de governo, Jacaré é frequentador assíduo dos palácios. Na última terça-feira, 18, ele esteve no Planalto, onde se reuniu com o presidente e, segundo ele, colocou os assuntos em dia. É com essa autoridade de quem compartilha da intimidade e da história de vida de Bolsonaro que Jacaré contou a VEJA detalhes do notório esquema da rachadinha, um dos principais motivos de desgaste para Bolsonaro desde o início de seu mandato presidencial (OUÇA OS ÁUDIOS). Em encontros no Rio de Janeiro e em Brasília, nos quais as conversas foram gravadas, Jacaré declarou que houve rachadinha nos gabinetes de Jair, Flávio e Carlos Bolsonaro e afirmou que a advogada Ana Cristina Valle, ex-mulher do presidente, foi quem organizou e comandou a arrecadação irregular de parte dos salários dos servidores, prática que configura o crime de peculato. Jacaré disse ainda que o presidente foi traído e não sabia dos rolos da ex-esposa, que ainda hoje chantageia Bolsonaro, pedindo dinheiro para manter o seu silêncio. “Ela fez nos três gabinetes. Em Brasília, aqui no Flávio e no Carlos. O Bolsonaro deixou tudo na mão dela para ela resolver. Ela fez a festa. Infelizmente é isso. Ela que fazia, mas quem é que assinava?”, pergunta Jacaré. “Quem assinava era ele. Ele vai dizer que não sabe? É batom na cueca. Como é que você vai explicar? Ele está administrando. Não tem muito o que fazer”, acrescenta, referindo-se a Jair Bolsonaro.

De acordo com Jacaré, a rachadinha entrou nos gabinetes da família do presidente ainda na década de 90, quando ele exercia mandato de deputado federal. Naquela época, Ana Cristina, então casada com um sargento, começou a se aproximar de Bolsonaro, quando participava de um movimento de mulheres de militares que reivindicava aumento no soldo dos maridos. Jacaré conta que ela foi se “infiltrando” e rapidamente ganhou a confiança de Bolsonaro, com quem iniciou um relacionamento amoroso. Logo, Ana Cristina recebeu carta branca para administrar o gabinete de Bolsonaro na Câmara dos Deputados. Teria começado aí a história de décadas de rachadinha na família presidencial. Segundo Jacaré, o esquema funcionava da seguinte maneira: responsável por uma cota de contratações, Ana Cristina recolhia documentos de algumas pessoas, abria contas bancárias em nome delas e embolsava grande parte de seus salários. Muitas vezes, o funcionário era fantasma e nem sequer tinha conhecimento de que estava oficialmente empregado no gabinete de Bolsonaro. Jacaré alega que quem já trabalhava com o ex-capitão antes da chegada de Ana Cristina, como ele, não participava do esquema.

PARCERIA ANTIGA - Jacaré e Bolsonaro: a amizade iniciada em 1987, antes da entrada do ex-capitão na política, rendeu ao “Zero Zero” empregos públicos, condecorações oficiais, livre acesso a gabinetes do poder no Rio e em Brasília, convites para eventos variados e, mais importante, o direito de compartilhar da intimidade do clã presidencial – fotos instagram @wferrazvoolivre; Leka Wesol/Agência Enquadrar/Folhapress; Leka Wesol/Ag. Enquadrar/folhapress; facebook @waldir.luizferraz.7/.

“Ela é muito perigosa. É uma mulher que quer dinheiro a todo custo. Às vezes, ela vai ao cercadinho, frequenta o cercadinho. É uma forma de chantagem. A gente nem toca nesse assunto pra não deixar o cara de cabeça quente.”Waldir Ferraz

“A jogada dela era a seguinte: ‘Quer ganhar um dinheiro? Te dou 1 000 reais por mês. Me empresta seu documento aí’. Pegava a carteira do cara que estava entrando na Câmara, recebia 8 000, 10 000, e dava 1 000 (reais) pro cara.” Leal a Bolsonaro, Jacaré faz questão de ressaltar que o presidente nada sabia das traficâncias da ex-mulher. Nem ele nem seus filhos. Em sua tese de defesa, o Zero Zero argumenta que os parlamentares se preocupam apenas com a atividade política, deixando a rotina do gabinete para pessoas de confiança. “Ele, quando soube, ficou desesperado, era uma fria. O cara foi traído. Ela que começou tudo. Bolsonaro nunca esteve ligado em nada dessas coisas. O cara não tinha visão do que estava acontecendo por trás no gabinete”, diz Jacaré. “Às vezes o chefe de gabinete faz merda, e o próprio deputado não sabe. Mesmo o deputado vagabundo não sabe, só vem a saber depois.” Pelo relato do ex-as­sessor, Bolsonaro só veio a saber muito tempo depois. Na verdade, décadas depois — mais precisamente em novembro de 2018, após conquistar a Presidência da República.

Confrontado com a gravidade da história, o amigo diz que o ex-capitão teria entrado em contato com o esquema de rachadinhas nos gabinetes da família só depois da revelação pelo jornal O Estado de S. Paulo do relatório do Coaf que registrava movimentações milionárias do policial aposentado Fabrício Queiroz, acusado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro de ser o operador no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj. Apenas ali ele teria puxado o fio de toda a meada. Como todo marido enganado, Bolsonaro teria sido o último a saber. De acordo com Jacaré, Queiroz, que também é amigo do presidente há mais de trinta anos, substituiu Ana Cristina como responsável pela arrecadação dos salários dos servidores, continuou o esquema sem o chefão saber. Detalhe: a ex-mu­lher de Bolsonaro nunca trabalhou oficialmente para o Zero Um, mas teve parentes empregados no gabinete dele na Alerj até 2018 e que hoje estão sob investigação do MP do Rio. Depois da passagem pela Câmara dos Deputados com Jair, Ana Cristina foi chefe de gabinete do vereador Carlos Bolsonaro por sete anos. Ela e o Zero Dois, aliás, também são investigados pelo MP pela prática de rachadinha.

Antes de o Supremo Tribunal Federal (STF) praticamente devolver à estaca zero a apuração sobre o esquema no gabinete de Flávio, o filho mais velho do presidente foi denunciado por lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e organização criminosa. Já Queiroz chegou a ser preso preventivamente enquanto se refugiava num imóvel de Frederick Wassef, advogado de Jair e Flávio Bolsonaro. Jacaré conta que, ainda no governo de transição, Bolsonaro ouviu de um auxiliar que o Zero Um poderia ser condenado a vinte anos de cadeia e ficou entre preocupado e emocionalmente fragilizado diante da previsão. Desde então, o caso paira como uma sombra ameaçadora sobre o presidente, seu governo e sua família. E, desde então, nas palavras do amigo, Bolsonaro vive “na corda bamba” e tem convicção de que ninguém acreditará que ele e os filhos não sabiam de nada do que ocorria dentro de seus respectivos gabinetes. “Não tem como reagir. Vai fazer o que para desmanchar isso aí? É como um beco sem saída. Ela fez uma m.., eles assinaram sem saber, e agora vão pagar caro por isso”, afirma Jacaré, sempre responsabilizando Ana Cristina. “Acho que ele vai ter problema se não for reeleito. Vai tudo cair, vai perder o foro privilegiado e tal.”

MEIO – Ana Cristina e Jair Renan: de acordo com Jacaré, ela
usa o filho para faturar – ./Reprodução

“Não sou mentora da rachadinha. Ele (Bolsonaro) me chamava de sargentona, mas quem assina as nomeações e exonerações é o parlamentar. Não faz sentido assinar sem ler porque todos eles são bem instruídos.”Ana Cristina Valle

Íntimo do clã presidencial, Jacaré diz ainda que Ana Cristina chantageia o presidente. Exige dinheiro e outras vantagens para não contar o que sabe. Ela teria, inclusive, ido algumas vezes ao cercadinho do Palácio da Alvorada, onde Bolsonaro interage com apoiadores, para ser vista e percebida pelo mandatário. Só para lembrá-lo, de acordo com Jacaré, dos segredos que unem os dois até hoje e podem complicar a vida do ex-marido. “Ela é muito perigosa. É uma mulher que quer dinheiro a todo custo. Às vezes, ela vai ao cercadinho, frequenta o cercadinho. É uma forma de chantagem, lógico que é chantagem. A gente nem toca nesse assunto pra não deixar o cara de cabeça quente”, acusa.

AFLIÇÃO - Flávio: Bolsonaro foi alertado de que o Zero Um poderia pegar até vinte anos de cadeia em razão da rachadinha – Cristiano Mariz/.

A relação de Bolsonaro com a ex-mu­lher, de fato, não é das mais tranquilas. Os dois se envolveram num divórcio litigioso em que, conforme revelado por VEJA em 2018, Ana Cristina o acusou de, entre joias e outras coisas, ter um patrimônio incompatível com a própria renda. No processo, ela anexou uma relação de bens e a declaração do imposto de renda do ex-marido, mostrando que o patrimônio do casal incluía três casas, um apartamento, uma sala comercial e cinco lotes de terra que o deputado havia esquecido de relatar à Justiça Eleitoral. Sua remuneração mensal, por exemplo, seria de 100 000 reais, quase três vezes mais do que ele recebia, na época, como parlamentar e aposentado do Exército. Acusada agora por Jacaré de chefiar a rachadinha em três gabinetes da família, Ana Cristina não disse à Justiça de onde vinha a diferença de valores e recuou dessa história, dizendo que estava brava com o ex-marido.

Nos últimos tempos, embora distantes, Bolsonaro e Ana Cristina não se atacam. Após a separação, ela viveu um tempo no exterior, casou-se outra vez e em 2018, utilizando o sobrenome Bolsonaro, tentou uma vaga na Câmara dos Deputados. Obteve apenas 4 555 votos e fracassou. Em agosto do ano passado, VEJA revelou que Ana Cristina vive em uma confortável mansão no Lago Sul, bairro nobre de Brasília, com o filho Jair Renan, o Zero Quatro, também investigado por receber vantagens de empresários com interesses no governo federal. “Ela também usa o menino para fazer dinheiro”, dispara Jacaré.

INVESTIGADO - Carlos: Ana Cristina foi sua chefe de gabinete na
Câmara do Rio – @cbolsonaro/Facebook

Na terça-feira 18, durante uma conversa por telefone com VEJA, Ana Cristina negou que tenha comandado esquemas de rachadinha, que chantageie Bolsonaro e disse que as acusações partem de inimigos que querem atingir os “meninos” Flávio e Carlos. “Se eu tiver que falar com o presidente, acha que eu vou para o cercadinho para todo mundo ficar vendo, para jornalista ficar vendo? Sou discreta”, declarou. Apesar de alegar inocência e entoar um discurso em defesa do ex-ma­rido e dos enteados, ela fez questão de arrematar sua defesa com a seguinte ponderação: “Não sou mentora da rachadinha. Ele (Bolsonaro) me chamava de sargentona, mas quem mandava no gabinete era ele. Quem assina as nomeações e exonerações é o parlamentar. Não faz sentido assinar sem ler porque todos eles são bem instruídos”.

Jacaré, que nada tem de inimigo do presidente, mantém-se vigilante. Municiar Bolsonaro com informações de coxia, que ele considera relevantes, sempre foi uma de suas missões. Não raro, o ex-capitão recebe os dados e as ideias de Jacaré e sai repetindo por aí. Numa tentativa de demonstrar quão zeloso ele é, o amigo do presidente diz ter sido decisivo para convencê-lo de que o ex-ministro Gustavo Bebianno, morto em março de 2020, estava por trás de um plano para assassinar Bolsonaro, que seria executado por Adélio Bispo, o autor da facada no ex-capitão às vésperas da eleição de 2018. Segundo a tese de Jacaré, Bebianno queria, com a morte do então candidato, ser ungido seu substituto na corrida presidencial. Ao descobrir o plano, ele teria contado detalhes da trama para o presidente e seu filho Carlos. Bolsonaro, de fato, ouviu essa história, tanto que mencionou a existência de uma conspirata para matá-lo em entrevista concedida a VEJA em 2019 — e falava explicitamente na participação de “quem estava do meu lado”. Candidato à reeleição, o presidente espera explorar politicamente na próxima campanha o atentado a faca que sofreu. Ele quer usar o episódio para requentar a tese de que Adélio agiu a mando de alguém e vender a versão de que ele, Bolsonaro, enfrenta uma oposição sem limites de forças ocultas a serviço do sistema.

CONSPIRAÇÃO - Bebianno: Jacaré convenceu Bolsonaro de que o ex-ministro 
participou, de alguma forma, da facada – Ricardo Borges/Folhapress/.

“É como um beco sem saída. Ela fez uma m…, eles assinaram sem saber, e agora vão pagar caro por isso. Acho que ele vai ter problema se não for reeleito. Vai tudo cair, vai perder o foro privilegiado e tal.”Waldir Ferraz

O problema dessa tese é que a própria Polícia Federal, durante o atual governo, concluiu que Adélio agiu sozinho e deu a questão da autoria por encerrada. Já o caso das rachadinhas continua em aberto e caiu no gosto popular, especialmente a informação de que Queiroz, o operador do esquema, depositou 89 000 reais para a primeira-dama Michelle. O presidente disse que esse dinheiro era parte do pagamento de uma dívida que Queiroz tinha com ele. Até aqui, a família Bolsonaro alega que as denúncias são infundadas, visam a desestabilizar o governo e partem de adversários. As declarações de Jacaré a VEJA põem em xeque essa versão. Não é um inimigo falando. O Zero Zero pode ser acusado de um monte de coisas, menos de não compartilhar da intimidade, da amizade e da história de vida de Bolsonaro. Procurado, o presidente não se manifestou até o fechamento desta edição.

Publicado em VEJA edição nº 2773