sexta-feira, 4 de março de 2022

Bolsonaro afaga Putin após ouvir de Boris Johnson críticas a atos da Rússia



O mundo ocidental tem dificuldades para compreender o que pensa o governo brasileiro sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia. Poucas horas depois de ouvir do primeiro-ministro britânico Boris Johnson a afirmação de que as ações do governo russo na Ucrânia "são repugnantes", Bolsonaro voltou a acenar para Vladimir Putin na sua live das noites de quinta-feira. Repetiu que Putin, seu mais novo amigo de infância, "vetou" no passado tentativas de questionar a soberania do Brasil sobre a Amazônia. Insinuou que é por gratidão que vem manifestando sua simpatia pelo autocrata russo. O do presidente sentimento não com o pragmatismo do Itamaraty.

Em tese, Boris Johnson telefonaria para Bolsonaro para agradecer pelos votos favoráveis que a diplomacia brasileira deu na ONU às resoluções que expressaram repúdio pelos ataques da Rússia. Mas o objetivo foi o de pressionar o capitão para que se comprometa pessoalmente com a pressão que Estados Unidos e Europa exercem sobre Putin.

O governo brasileiro não se pronunciou sobre o conteúdo da conversa. Coube à chancelaria britânica informar que Boris e Bolsonaro "concordaram com a exigência de um cessar-fogo urgente na Ucrânia e disseram que a paz tem que prevalecer."

Nesse contexto, a referência amazônica de Bolsonaro não faz nexo. O presidente se assusta com a assombração errada. Tem pesadelos com o suposto desejo de Emmanuel Macron e Joe Biden, presidentes da França e dos Estados Unidos, de internacionalizar. O diabo é que foi o "amigo" violou a soberania de outro país.

O problema da Amazônia não é de internacionalização, mas de falta de nacionalização. Sob Bolsonaro, a região foi, por assim dizer, abandonada à própria sorte. Encontra-se à mercê do crime organizado da extração de madeira e da mineração ilegal.

O que desnorteia os chefes de estado que tentam compreender Bolsonaro é a dicotomia do governo. Nesta sexta-feira, a despeito da condescendência do presidente com Putin, o Brasil deve votar no Conselho de Direitos Humanos da ONU a favor da criação de uma comissão de inquérito sobre os crimes cometidos na guerra na Ucrânia. Quer dizer: a exemplo que fez com as vacinas, Bolsonaro diverte a turma do cercadinho com teorias como a de que a Pfizer faz virar jacaré enquanto o Itamaraty imuniza o Brasil na ONU.

Por Josias de Souza

Putin é um criminoso indesculpável, mas expôs nudez da verdade


O presidente russo, Vladimir Putin, em Moscou - Reuters TV-27.fev.22/Reuters

EUA e a Otan já atacaram mais de uma vez países soberanos; quantos males pode haver na Pandora aberta de Kosovo?

Vladimir Putin violou a Carta das Nações Unidas e o direito internacional. Qualquer que seja o desdobramento de sua ação na Ucrânia, já é o grande derrotado.

A Rússia é uma ditadura mitigada. Pós-guerra e sanções, ele só permanecerá no poder com tirania explícita. Cometeu erros, mas contribuiu, apelando a Eça de Queirós, para retirar do tal Ocidente o manto diáfano da fantasia que cobria a nudez forte da verdade.

Potências não podem —ou não deveriam— romper as regras do direito internacional, pretextando ou não a intervenção humanitária. Quantas vezes, no entanto, também os EUA, com ou sem Otan, o fizeram e o farão?

No realismo de um Carl Schmitt (1888-1985), por exemplo, americanos e russos agiram em nome do que importa: a segurança, não os direitos. No plano intelectual, lutemos contra a herança de Thomas Hobbes, resgatando como inspiração moral a Escola Ibérica da Paz, nunca estudada por aqui.

O realismo cru não se ocupa de limitar o poder de Estado, mas de justificá-lo. A segurança como um bem que exclui os direitos abre a vereda para a terra dos mortos.

A parceria entre a Otan e os "primaveristas" da Líbia e da Síria, por exemplo, inventou a quimera do "jihadismo da liberdade", que fez da África um ninhal de terroristas e deu à luz o Estado Islâmico.

A máquina de guerra dos EUA, diga-se, está sempre ocupada em duas coisas: em combater terroristas e em fabricá-los. O vexame no Afeganistão, que Joe Biden tenta agora compensar, é eloquente. A propósito: quem vai um dia recolher as armas distribuídas às milícias ucranianas, às quais poetastros dedicam panegíricos canhestros?

Mais de uma vez os EUA e a Otan mandaram a carta da ONU às favas e atacaram países soberanos. Quantos males pode haver na Pandora aberta de Kosovo?

"Isso justifica Putin?" Não! Mas quem define quando a violação ao direito internacional deve ser punida ou aplaudida? Infelizmente, é o tal "realismo cru".

Quantas crianças a Arábia Saudita, aliada dos EUA, pode matar no Iêmen? Temos de rejeitar o pretexto da segurança como fundamento de invasões. Putin não me seduz. EUA não me enganam. São diferentes, mas se combinam.

Realismo sangrento e triunfo das regras, no entanto, não se plasmam no éter, mas na história.

A expansão da Otan para o Leste europeu pós-dissolução da URSS não era parte do jogo. Não houve proibição explícita, mas um acordo tácito de autocontenção. James Baker, um liberal, queria a Rússia na aliança. Henry Kissinger, oráculo ou monstro do realismo, defendeu uma Ucrânia livre, mas fora do grupo, seguindo o modelo da Finlândia.

Na semana passada, a Otan convidou o país a ser sócio, o que nos remete, a um só tempo, à revolução de 1917 e ao cerco de 872 dias a Leningrado, quando os finlandeses se juntaram a nazistas e fascistas.

A história não tem de oprimir como um pesadelo o cérebro dos vivos. Tem de instruí-los.

"Que países soberanos se juntem com quem quiser", diz o bobalhão. É essa a diretriz que emana de Washington nas suas "zonas de influência? Ignorar que o adversário à frente da Otan é a Rússia corresponde a abandonar os fatos. E Putin segue sendo um criminoso.

No discurso do Estado da União, Biden jactou-se de ter sequestrado parte das reservas russas e anunciou uma caçada aos "magnatas" mundo afora. Afinal, o país dispõe do FCPA (Foreing Corrupt Practices Act), que dá a seu Departamento de Justiça autorização para atuar como polícia do mundo. Em nome da... segurança!

A China apresentou-se como mediadora do conflito. Deve olhar com interesse para uns EUA capazes de tomar títulos de sua dívida comprados por terceiros. Quem tem Taiwan sabe enxergar uma metáfora, embora a comparação seja descabida porque a ilha nunca teve o status de país soberano.

Putin se lascou, mas contribuiu, com sua truculência, para revelar a nudez forte da verdade.

Enquanto não tem de enfrentar para valer a China, os americanos precisam da Rússia — e de Putin, o execrável — para brincar de Guerra Fria.

É o declínio do império americano no seu esplendor. E olhem que nem falei do "Bulava". Como? Você não sabe o que é Bulava? Corra para o Google e para seu livro de orações.

Por Reinaldo Azevedo

quinta-feira, 3 de março de 2022

Embraer suspende serviços para clientes afetados por sanções à Rússia



A Embraer suspendeu serviços de peças, manutenção e suporte técnico para clientes alvos de sanções internacionais, diante da invasão das tropas russas à Ucrânia, afirmou a companhia nesta quinta-feira (3).

A empresa afirmou em comunicado que "está monitorando de perto a evolução da situação e vem cumprindo, e continuará cumprindo, as sanções internacionais impostas à Rússia e a certas regiões da Ucrânia".

Embraer não forneceu mais detalhes sobre a suspensão dos serviços.

Nos últimos dias, algumas das maiores empresas ocidentais, de Boeing e Exxon Mobil a Ford e Adidas, suspenderam operações na Rússia por conta das sanções impostas por Estados Unidos e União Europeia.


Foto de Bolsonaro com Putin transformou-se na imagem do mito com o mico



A resolução da Assembleia Geral da ONU que condenou a invasão e o bombardeio da Ucrânia pela Rússia transformou em cinzas o material de campanha reunido por Bolsonaro na sua visita ao Kremlin. A viagem presidencial a Moscou não produziu nenhum acordo comercial. Mas o candidato à reeleição obteve a tão desejada foto ao lado de Vladimir Putin. Quis mostrar ao eleitorado nacional que não estava isolado na seara internacional. Hoje, a foto exibe a imagem do mito apertando a mão de um mico. Putin tornou-se um personagem radioativo.

A Assembleia Geral da ONU é composta por 193 nações. Desse total, 141 países (73%) votaram a favor da resolução que condenou a Rússia, entre eles o Brasil. Outros 34 países (18%) se esconderam atrás da abstenção. Nesse grupo está incluída a China. Além da Rússia, apenas quatro países (2%) votaram contra a resolução. Fecharam com Putin as ditaduras da Bielorrússia, da Síria, da Eritreia e da Coreia do Norte fecharam. Repetindo: na foto da ONU, apenas 2% do mundo posaram ao lado de Putin.

No último domingo, o presidente interrompeu seu ócio no Guarujá para conceder uma entrevista. A certa altura, celebrou o fato de ter sido "o último chefe de Estado" a visitar Putin. "Pelo espaço que deu para mim, somos importantes", comentou, antes de estabelecer uma comparação com Emmanuel Macron. O presidente francês, disse Bolsonaro, "foi recebido sozinho no aeroporto. Para mim teve honras militares. Ele ficou afastado da mesa, apesar de vacinado. Putin ficou sem máscara ao meu lado. Achei uma deferência enorme, carinho mesmo pelos brasileiros".

A ficha de Bolsonaro demora a cair. Mas as imagens que colecionou na Rússia talvez não sirvam nem para a campanha paralela que o filho Carlos Bolsonaro conduz no gueto bolsonarista das redes sociais. A investida do candidato não lhe rendeu os votos que precisa conquistar fora do cercadinho.

Enquanto Bolsonaro despeja novas teorias conspiratórios no WhatsApp, o Itamaraty faz malabarismo para ajustar seus discursos à idiossincrasia do chefe e a ministra Tereza Cristina, da Agricultura, procura fornecedores alternativos para suprir os fertilizantes que o mito não conseguiu obter do mico.

Por Josias de Souza

Não é hora de neutralidade (Editorial do Estadão)



Até a Suíça deixou a neutralidade e apoiou as sanções, mas Bolsonaro preferiu tolerar a agressão à Ucrânia e à ordem global

Só o rápido fim da guerra, com suspensão da violência, desocupação da Ucrânia e restauração da ordem multilateral, pode interessar ao Brasil. O presidente Jair Bolsonaro, no entanto, parece desprezar essa verdade tão óbvia quanto importante. Mantida a agressão à soberania ucraniana, a insegurança continuará e todos os países serão afetados política e economicamente. Não é hora para neutralidade nem para simpatia mal disfarçada a quem viola de forma inegável e arrogante o direito internacional. Não adianta recorrer a argumentos travestidos de realismo. Nem a mais grosseira caricatura de maquiavelismo pode justificar a atual diplomacia presidencial. Além de política e moralmente indefensável, a tolerância ao brutal expansionismo de Vladimir Putin é mau negócio.

Se a guerra se prolongar, prolongadas serão também as sanções. As maiores perdas poderão caber à economia russa, mas todos pagarão um preço, incluído o Brasil. Se ficar mais difícil importar da Rússia, o agronegócio poderá ter dificultado seu acesso ao principal fornecedor de certos fertilizantes – 76% do nitrogênio, 55% do fósforo e 94% do potássio aplicados nas lavouras brasileiras. Isso prejudicará o plantio, no segundo semestre, dos cereais e oleaginosas da próxima safra de verão.

Também as vendas do Brasil à Rússia poderão ser afetadas, mas com pouco efeito no resultado geral do comércio. Em 2021, o mercado russo absorveu exportações brasileiras no valor de US$ 1,59 bilhão, soma equivalente a apenas 1,59% do total. Na lista de países compradores de produtos brasileiros, a Rússia apareceu, no ano passado, em 36.º lugar. Em 2006, 2,5% das vendas externas do Brasil foram destinadas ao mercado russo, mas essa fatia diminuiu a partir do ano seguinte, talvez por negligência brasileira.

Se depender do empresariado da Rússia, parece pouco provável uma redução das vendas de fertilizantes ao Brasil. Esse empresariado já indicou ao presidente Putin sua preocupação com as consequências econômicas da guerra. Será uma surpresa se renunciar a qualquer esforço para manter os negócios com clientes do mundo capitalista, especialmente se essa clientela estiver ligada ao agronegócio brasileiro.

Mas o risco de empecilhos ao comércio é inegável, se a guerra e as sanções forem mantidas por muito tempo. Problemas poderão surgir nas cadeias globais de suprimentos, alertou a diretora-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), a nigeriana Ngozi Okonjo-Iweala. Ela destacou possíveis altas de preços, com danos principalmente para as populações pobres, se houver redução das exportações de cereais da Rússia e da Ucrânia, países grandes produtores de trigo e de milho.

O Brasil, diria um analista apressado, até poderia beneficiar-se com maior exportação de alguns produtos. Mas apostar em ganhos provenientes de uma guerra é perigoso econômica e politicamente e inaceitável pelos critérios da convivência segura.

Esses critérios foram várias vezes menosprezados, nos últimos três anos, pelo Executivo brasileiro, em manifestações contrárias à ordem multilateral. Sua política antiambientalista, com desastrosos efeitos diplomáticos, naturais e humanos, é um claro exemplo dessa oposição a valores defendidos internacionalmente.

As características bolsonarianas também se manifestam na identificação do presidente brasileiro com chefes autoritários, como o russo Vladimir Putin e o húngaro Viktor Orbán. Ambos foram visitados na semana anterior à invasão da Ucrânia. Consumada a violação, o Executivo brasileiro limitou-se a defender negociações. O governo da Suíça, país tradicionalmente neutro, aderiu às sanções. “Estamos com o povo ucraniano na travessia desses horrendos acontecimentos”, disseram os líderes do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, ao anunciar ajuda à Ucrânia.

As escolhas são claras e nem o malabarismo da diplomacia brasileira esconde a tolerância à brutalidade de Putin. Serão os dirigentes do FMI, do Banco Mundial e da Suíça incapazes de entender o bom negócio de Bolsonaro?

As derrotas de Vladimir Putin



O presidente Vladimir Putin está perdendo a guerra. Não há mais bom cenário para ele. O domínio do território da Ucrânia ocorrerá unicamente pela desproporção de forças, mas ele não conquistará a Ucrânia. O PIB do país que governa vai despencar numa recessão que é ainda difícil de calcular, o dólar subiu 40%, medidas são tomadas pelo Banco Central para conter a fuga de divisas. Um rublo vale menos que um centavo de dólar. Nos últimos sete dias houve uma brutal destruição da riqueza russa. A bolsa ficou fechada, mas em Londres as empresas russas viraram pó. A ação do banco Sverbank estava cotada a US$ 15, vale agora US$ 0,02. E seu braço europeu decretou falência. Os títulos do país são classificados como lixo e não encontram comprador. Putin governa um país sitiado econômica e financeiramente.

O projeto inicial de Putin fracassou. Ele achou que seria um passeio, um desfile militar até Kiyv. E encontrou pela frente o espírito humano. A força e a capacidade de luta dos ucranianos não se explicam nos manuais militares. Essa foi a primeira derrota de Putin. O domínio final será pelo esmagamento, seus tanques andarão sobre escombros. Que vitória será essa?

Nos seus planos de guerra estava a ideia de que bastava ameaçar com “consequências jamais vistas” que o Ocidente nada mais faria além dos discursos retóricos de sempre. Essa foi sua segunda derrota. No domingo, diante das primeiras sanções, Putin fez a reunião teatral com seu ministro da Defesa ordenando colocar em prontidão as forças especiais que lidam com arsenal nuclear. Iniciou assim a sua terceira derrota, porque a partir daquele momento o Ocidente se uniu de maneira incomum e disparou a mais poderosa arma financeira já usada contra uma economia.

Ontem a governadora do Banco Central russo definiu a situação como “extrema”. A moeda está no vazio. Calcula-se que os russos já sacaram US$ 15 bilhões. As empresas exportadoras são obrigadas a entregar 80% dos dólares ao governo. Mas a dúvida é se essas divisas entrarão no país, dado que o comércio está parando. As grandes empresas e marcas estão promovendo um verdadeiro banimento do mercado russo dos seus negócios. A lista é enorme e não caberia neste espaço, mas envolvem companhias como Apple, Disney, Adidas, Shell, BP, Exxon, Equinor, Airbus, Boeing, Visa, Mastercard, Volvo, General Motors, Microsoft. Inúmeras. Por pressão dos consumidores e sob risco reputacional, as companhias preferem perder dinheiro a manter os laços com a economia russa. Laços que foram construídos em mais de 30 anos.

A desvalorização do rublo levará a uma forte queda do poder de compra e o consumo responde por 50% do PIB. Empresas começam a quebrar. Haverá uma completa desorganização da cadeia produtiva. O setor de serviços também será afetado, principalmente o de softwares e alta tecnologia, o que irá diminuir a produtividade no país. Aviões russos já não podem voar para outros países, os navios não serão aceitos nos portos. Das finanças à indústria, dos serviços ao entretenimento, da agricultura ao esporte, tudo está sendo bloqueado.

A Rússia exporta perto de 8% do petróleo do mundo, e, apesar de as sanções não terem atingido o setor de energia do país, a Gazprom teve dificuldades para ir a mercado vender o produto ontem, mesmo com desconto nos preços. As comercializadoras não querem comprar e os bancos não aceitam financiar a operação.

O país de Vladimir Putin não é grande do ponto de vista econômico, mas é um gigante militar. Sua economia pode ser considerada média, e no médio prazo a Rússia tem muito a perder. Todos esses investimentos cancelados levarão a desemprego e ao empobrecimento. A Alemanha e outros países europeus tentarão encontrar outros fornecedores para o seu gás e seu petróleo. A Rússia poderá estreitar laços com a China, uma potência cada vez mais forte, mas isso a tornará mais dependente.

A população da Rússia está encolhendo. Hoje existem 2,5 milhões de russos a menos do que havia em 1993. Até o ano que ele escolheu para deixar o cargo, 2036, a população vai encolher em mais 5,2 milhões de pessoas, será de 140,6 milhões de habitantes. Essa não era a hora para mandar homens jovens correr risco de morte. Se é que existe hora boa para um governante mandar sua população matar e morrer em nome de um delírio expansionista.

Por Mirian Leitão

quarta-feira, 2 de março de 2022

'Não há segurança pública se o cidadão precisa se armar' (Editorial do Estadão)



Segurança pública não é violência

Ao lado de casos de sucesso na segurança pública, como são as câmeras nos uniformes policiais, observam-se ações políticas que fomentam a violência e a baderna

Aspecto fundamental da vida em sociedade, a segurança pública afeta todas as pessoas e empresas. Ninguém está imune à desordem, à violência, ao crime e à sensação de insegurança. Tal constatação deveria conduzir a um consenso mínimo sobre políticas públicas para a área, identificando prioridades e os meios disponíveis para realizá-las. No entanto, observam-se ideias e ações políticas diametralmente opostas que, mais do que diferenças ideológicas, revelam uma grande confusão sobre a própria concepção de segurança pública. Há gente se aproveitando do tema para a mais vil politicagem.

Constatam-se, de um lado, avanços significativos na área de segurança pública, como são os bons resultados advindos do uso de câmeras em uniformes das polícias. Cada vez mais governos estaduais e municipais adotam a tecnologia. Segundo levantamento do Estadão, além de São Paulo, Santa Catarina e Rondônia – que já usam as câmeras de forma permanente –, nove Estados têm feito testes com os equipamentos. Guardas municipais também têm usado a tecnologia.

Trata-se de investimento público que melhora a segurança da população. As câmeras corporais filmam a atividade policial, monitorando a legalidade das condutas e colhendo provas. Como era previsível, o uso da tecnologia diminuiu drasticamente a taxa de letalidade policial. O equipamento também propicia uma melhor coordenação da atividade policial, ao fornecer a localização precisa dos agentes e das ocorrências.

O uso de câmeras corporais é um poderoso caso de sucesso de política pública na área da segurança. Vale lembrar que a transparência também beneficia diretamente o bom trabalho dos policiais. Com o registro das evidências, as ações policiais em defesa da lei podem ser facilmente justificadas. Diante da incontestável eficiência da tecnologia, o Colégio Nacional de Secretários de Segurança Pública (Consesp) está elaborando uma diretriz sobre as câmeras corporais, para orientar e fomentar sua adoção em todo o território nacional.

Ao lado dessas experiências positivas, verificam-se também ações políticas que, sob o pretexto de aumentar a segurança pública, trazem na verdade riscos para a população. Nessa rota de retrocesso e violência, o bolsonarismo tem notório protagonismo.

Se as câmeras corporais são uma excelente notícia para o País, é simplesmente estarrecedor constatar o crescimento do número de registros de armas. Em 2021, a Polícia Federal licenciou mais de 204 mil artefatos para a população civil, segundo informou o jornal O Globo. Em 2020, foram 177 mil licenciamentos e em 2019, 94 mil. Em 2018, último ano do governo de Michel Temer, a Polícia Federal havia licenciado 51 mil peças. Os números não incluem as armas utilizadas por caçadores, atiradores e colecionadores (CACs), controladas pelo Exército.

O progressivo armamento da população civil, que contraria a Constituição e o Estatuto do Desarmamento, revela o quão nefasta é a permissividade do governo de Jair Bolsonaro, que reduziu o controle e as restrições relativas às armas de fogo. Recentemente, contrariado com uma notícia que mostrava como armas obtidas por meio da licença para CACs abasteciam o crime organizado, Bolsonaro reafirmou sua enorme confusão e ignorância sobre o tema. “Estamos no caminho certo. Cidadão legalmente armado (no campo ou cidade) além de segurança para si e sua família, é a certeza que nunca será escravizado por nenhum ditador de plantão”, escreveu no Twitter.

Não há segurança pública se o cidadão precisa se armar. Cabe ao poder público prover a segurança de todos. Um presidente da República que, sob o pretexto de proteger o cidadão, libera o uso de armas está admitindo sua mais cabal incompetência em realizar um serviço que compete ao Estado prestar.

Além disso, como nos tempos de mau militar, Jair Bolsonaro segue atiçando paralisações e motins das forças de segurança estaduais. Isso é grave baderna ilegal e irresponsável. Segurança pública é proteção do cidadão, dentro da lei. Não é violência, é cidadania.

Bolsonaro indignou-se com sua indignidade após torrar R$ 900 mil em férias


Bolsonaro foi criticado por manter as férias em meio a tragédia na Bahia provocada por fortes chuvas.
Foto: Twitter Imagem: Bolsonaro foi criticado por manter as férias em meio a tragédia na Bahia
provocada por fortes chuvas. Foto: Twitter

Patriota extremado, Bolsonaro se casou com a pátria. E foi morar no déficit público. Há mais de três décadas, dispõe de tudo o que o dinheiro —do contribuinte— pode comprar. De uma coisa sentirá saudade se for enviado ao olho da rua pelo eleitor: da boa vida que leva como presidente. No Planalto, não precisou do faturamento da holding familiar da rachadinha, empreendimento que morde nacos dos salários de assessores, para bancar suas despesas. Passou a dispor dos cartões corporativos. Já não precisa fazer contas. Apenas usufrui da mordomia.

O presidente torrou R$ 900 mil nas suas férias de uma semana em Santa Catarina. A cifra frequenta o noticiário desde 23 de fevereiro. Mas Bolsonaro, indagado a respeito numa entrevista, disse desconhecer o gasto. Indignou-se com a própria indignidade: "Acho um absurdo! Se foi R$ 900 mil, vou pegar no cangote de alguém lá. Não tem cabimento. Eu fiquei, se não me engano, seis ou sete dias."

Bolsonaro revoltou-se com o custo da boquinha catarinense no instante em que usufrui de novas férias, que ninguém é de ferro. Pela décima vez em três anos, o capitão e seu séquito estão no Guarujá. Costuma-se dizer que dinheiro não traz felicidade. Bolsonaro vai demonstrar até o final do seu mandato que essa é uma questão financeira irrelevante quando o dinheiro é dos outros.

Bolsonaro estilhaçou imagem da Polícia Federal



Em Brasília, quase tudo o que se vê, se sente e se respira conspira. Quem viu o vídeo da fatídica reunião ministerial de 22 de abril de 2020 sentiu que a Polícia Federal corria perigo. Bastou respirar o cheiro de queimado que emanava dos comentários de Bolsonaro. "Vai trocar", disse o presidente. "Se não puder trocar, troca o chefe dele. Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro. E ponto final. Não estamos aqui para brincadeira."

Decorridos quase dois anos, Bolsonaro demonstrou que não estava mesmo para brinquedo. Trocou o "traidor" Sergio Moro por um amigo dos seus filhos, Anderson Torres, no Ministério da Justiça. Substituiu o diretor-geral da Polícia Federal cinco vezes. E autorizou duas dezenas de remoções em postos de chefia nas superintendências estaduais do órgão. Houve mais do que mero aparelhamento político. Bolsonaro estilhaçou a imagem da PF.

Bolsonaro parecia menos ambicioso quando olhou para Moro naquela reunião de dois anos atrás para avisar que não esperaria "foder minha família toda de sacanagem ou amigo meu" para interferir na "segurança" do Rio de Janeiro. Num instante em que se imaginava que o presidente estivesse satisfeito com o trabalho de Paulo Maiurino, a Casa Civil da Presidência mandou publicar a exoneração do diretor-geral da PF numa edição extraordinária do Diário Oficial.

Maiurino faria aniversário de um ano no posto em abril. Foi substituído pelo delegado Márcio Nunes de Oliveira, o número Dois do Ministério da Justiça. Atribuiu-se a decisão ao ministro Anderson Torres. Conversa mole. Quem tem calos como os de Bolsonaro, protagonista de meia dúzia de investigações criminais, não terceiriza a escolha de um subordinado que pode metê-lo em apertos.

A saída de Maiurino causou certa estupefação, pois generalizou-se a percepção de que o delegado se esmerava nas adulações ao presidente e seus filhos. Por exemplo: afastou a delegada Dominique de Castro Oliveira da Interpol depois que ela colocou para andar o pedido de extradição de Allan dos Santos, o blogueiro bolsonarista que foge nos Estados Unidos de uma ordem de prisão emitida pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo.

Ao promover uma dança de cadeiras nas superintendências estaduais da PF, Maiurino exportou pelo menos quatro delegados do Rio de Janeiro, berço eleitoral de Bolsonaro, para outras praças. No Distrito Federal, por exemplo, acomodou Victor Cesar Carvalho dos Santos. O personagem assumiu no lugar de Hugo de Barros Correia, que se recusara a compartilhar informações sobre inquéritos em andamento. Um dos processos envolve Jair Renan, o filho Zero Quatro do mito.

Mais recentemente, Maiurino empurrou a PF para dentro da campanha eleitoral ao divulgar nota oficial intitulada "Moro Mente." No texto, contraditou Sergio Moro, desafeto do chefe, que dissera não haver "ninguém no Brasil sendo investigado e preso por grande corrupção."

Maiurino não havia demonstrado a mesma preocupação em defender a corporação quando outro presidenciável, Ciro Gomes, classificara uma batida de busca e apreensão dos rapazes da PF em sua casa de ação do "braço do Estado policialesco de Bolsonaro."

Um dos inquéritos que correm no Supremo contra Bolsonaro nasceu da acusação feita por Moro de que seu ex-chefe estaria transformando a PF num aparelho político para proteger amigos e perseguir adversários. Depois que Moro deixou o Ministério da Justiça chutando a porta, Bolsonaro instalou na pasta uma porta giratória.

O delegado Maurício Valeixo saiu junto com Moro. Após a sua exoneração, foram nomeados: Alexandre Ramagem, que teve a posse barrada pelo Supremo, Rolando de Souza, Paulo Maiurino e, agora, Márcio de Oliveira. A alta rotatividade não impede o Planalto de sustentar que nada de anormal acontece na PF. Entretanto, não há força no universo capaz de eliminar a maledicência segundo a qual, sob Bolsonaro, nada tornou-se uma palavra que ultrapassa tudo.

Alexandre Saraiva, delegado que acusou o então ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) de favorecer madeireiros ilegais, foi afastado da chefia da PF no Amazonas. O delegado William Tito adquiriu prestígio depois de concluir que Bolsonaro não prevaricou ao ignorar as denúncias de irregularidades que lhe chegaram sobre o contrato de compra da vacina indiana Covaxin.

Noutro processo, Bolsonaro recusou-se a prestar depoimento à delegada Denisse Ribeiro. Ela reuniu sólidos indícios de que o presidente vazou e deturpou dados de um inquérito sigiloso para mentir sobre vulnerabilidades inexistentes nas urnas eletrônicas.

Três das coisas mais perigosas para um governo são a imprensa livre, a Procuradoria ativa e a Polícia Federal autônoma. Bolsonaro se contrapõe à imprensa profissional difundindo notícias falsas. Acomodou na Procuradoria um procurador sem vocação para procurar. E conduz com sucesso a demolição da PF. Conseguiu avacalhar um órgão que já foi respeitado.

Por Josias de Souza

Rússia, Ucrânia, realismo e direito internacional. E um artigo de Kissinger


Henry Kissinger, o lendário, escreveu um artigo em 2014 em que defende a plena autonomia
da Ucrânia, mas fora da Otan Imagem: AFP

Nesta segunda, representantes do governo da Rússia e da Ucrânia se encontram em Gomel, na Belarus, para tentar negociar um cessar-fogo. As perspectivas não parecem ser as melhores. Vladimir Putin tem contra si as regras mais comezinhas do direito internacional. Não há dúvida de que ele as violou, e uma tempestade desabou sobre sua cabeça. Por mais que tenha antevisto os riscos e se antecipado a possíveis reações, pode ser que tenha calculado mal a dimensão. Talvez esteja decepcionado e surpreso, tanto é que já falou em dissuasão nuclear. Ele o fez cedo demais, o que não quer dizer, por óbvio, que inexista o risco.

Os Estados Unidos, que arrastam consigo a União Europeia — não há mais Angela Merkel, e Emmanuel Macron se apequenou com impressionante rapidez — estão dispostos a quebrar a espinha de Putin a, literalmente, qualquer custo. O esforço para isolar economicamente a Rússia, tomando-lhe, inclusive, parte das reservas internacionais, é uma catástrofe para o país, mas gera também instabilidade no mundo, que mal saiu do desastre provocado pela Covid-19. É evidente que não se pode deixar Putin invadir territórios alheios à sua vontade, mas o congelamento de reservas não deixa de ser uma forma de invasão e representa, igualmente, uma óbvia agressão ao direito internacional.

SANÇÕES E CONSEQUÊNCIAS
EUA e aliados decidiram enviar armas de ataque e caças à Ucrânia, que é um modo indireto de entrar na guerra. Não se fala, até agora, em envio de tropas porque isso significaria, parece, o início de uma Terceira Guerra Mundial, em que os tanques e aviões ora em ação seriam considerados obsoletos, se é que me entendem... O arsenal nuclear da Rússia é até maior do que o dos EUA, mas há no Ocidente outras potências nucleares. Essa é uma conta à beira do abismo porque, num enfrentamento total, nada restará no planeta que valha a pena. Sabe-se lá se será o extermínio da humanidade.

A exclusão do país do sistema internacional de compensações, se efetivada pra valer, pode ter efeitos devastadores para a economia mundial, inclusive para a brasileira, que importa fertilizantes da Rússia. Atenção! Não vamos confundir as burrices que diz Bolsonaro com os interesses do Brasil. O Itamaraty repudiou a invasão, mas se opôs a essas medidas. Querem saber? Fez o certo nesse particular. Até porque EUA e UE resolveram estimular a ação de hackers contra a Rússia, coalhada de ogivas nucleares, algumas de acionamento remoto. É de uma irresponsabilidade espantosa. Ontem, aliás, Bolsonaro chegou a dizer que tinha tido uma conversa de duas horas com Putin. Depois recuou. Estava mentindo, certo?

O arsenal nuclear dos países existe para não ser usado. Trata-se do mais poderoso instrumento de dissuasão a impor a prevalência da política sobre a guerra. No caso da Ucrânia — na verdade, do mundo pós-soviético —, vê-se que faltou um tanto de bom senso político ao lado que inequivocamente triunfou com o fim da URSS. Não por acaso, James Baker chegou a sugerir que a Otan tentasse ter a Rússia como sócia do clube. Antevia problemas. E houve um entendimento tácito de que a aliança não avançaria para o Leste europeu porque, claro!, a Rússia pareceria ser a inimiga a ser contida. E era.

E, no entanto, a Otan avançou. E com que apetite! Aceitou o ingresso de nada menos de 14 ex-repúblicas socialistas, incluindo três ex-soviéticas: Lituânia, Letônia e Estônia. E, como é regra em associações dessa natureza, o combinado é que os sócios se defendam com homens e armas. Imaginar que a Rússia aceitaria passivamente a migração da Ucrânia para a União Europeia e para a Otan corresponde a jogar no lixo alguns ditames do realismo político. Podendo impedir, países não aceitam forças hostis nas suas fronteiras.

REALISMO E DIREITO INTERNACIONAL
Mas o realismo também não pode ser a licença para o horror e para o vale-tudo. Existem as regras do direito internacional. E aqui, claro!, se pode indagar se as potências ocidentais, por intermédio da Otan, não as desrespeitaram muitas vezes, ainda que pretextando ações de caráter humanitário. A intervenção em Kosovo se deu ao arrepio de qualquer legalidade. A ação contra a Líbia foi muito além do que foi autorizado. A intervenção na Síria foi igualmente desastrada. É evidente que a invasão da Ucrânia não pode ser tolerada. Mas fechar os olhos para a expansão da Otan e para suas ações ilegais em período recente corresponde a se colocar como porta-voz de alguns senhores da guerra.

Putin tem de recuar, e a Ucrânia tem de recuperar a sua autonomia, mas também tem de se lembrar quem é, qual a sua história e onde está localizada, renunciando a provocações. Lembro aqui um artigo de Henry Kissinger — sim, ele — escrito em 2014 no Washington Post.

Depois de fazer considerações sobre os laços históricos entre Ucrânia e Rússia, afirmou:
"1: A Ucrânia deve ter o direito de escolher livremente suas associações econômicas e políticas, inclusive com a Europa;
2: a Ucrânia não deve aderir à OTAN, posição que assumi há sete anos, quando essa questão começou [a ser discutida];
3: a Ucrânia deve ser livre para criar qualquer governo compatível com a vontade expressa por seu povo. Os sábios líderes ucranianos optariam, então, por uma política de reconciliação entre as várias partes de seu país. Internacionalmente, devem seguir uma postura comparável à da Finlândia. Essa nação não deixa dúvidas sobre sua feroz independência e coopera com o Ocidente na maioria dos campos, mas evita cuidadosamente a hostilidade institucional em relação à Rússia."

Viram? É a defesa do casamento entre o realismo e o respeito à ordem internacional. Lembro de novo que a arrogância da Otan é tal que fez um convite formal na semana passada para que justamente a Finlândia (além da Suécia) integrasse as suas fileiras — aquela mesma citada por Kissinger como exemplo a ser observado. Lembre-se que o país era território russo, independente há pouco mais de 100 anos e que lutou ao lado dos nazistas contra os soviéticos na Segunda Guerra.

Vamos ver no que vai dar a reunião. Zelensky não é mais um comediante, mas continua a ter mais sucesso como comunicador do que como presidente. Alardeou ontem que o ataque da Rússia é generalizado e devastador. E aí o seu próprio governo informa que as baixas civis seriam pouco mais de 400... Ora, ataque indiscriminado é o que os nazistas fizeram a Stalingrado (hoje Volvogrado) ou o que os aliados fizeram a Dresden, na Alemanha. Nos dois casos, a população civil virou alvo militar. Os mortos se contaram aos muitos milhares.

Se os números são os anunciados pelo governo da Ucrânia, é sinal de que os russos ainda buscam alvos militares e ataques de precisão a determinadas instalações. Não há a determinação do ataque indiscriminado. Ao menos até agora. Mas o comediante que antes gostava de fingir que era presidente agora representa o papel de herói da resistência.

Que as negociações prosperem. Não podemos ser reféns de um autocrata, de um bufão destrambelhado e dos desatinos da Otan, ora sob o comando de um líder que usa jogos da guerra como instrumento de propagada em eleições domésticas.