O Estado de S.Paulo
Para generais, decepção só é comparável à escolha de Viegas no início do
governo Lula
A escolha do ex-chanceler Celso Amorim para substituir Nelson Jobim no
Ministério da Defesa desagradou a almirantes, generais e brigadeiros e foi
considerada "a pior surpresa" dos últimos tempos pelos militares, só comparável
à escolha de José Viegas Filho, também diplomata, no início do governo Luiz
Inácio Lula da Silva, para o mesmo cargo.
No caso de Celso Amorim, de acordo com oficiais-generais da ativa ouvidos
pelo Estado - e que não podem se identificar para não quebrar o regulamento
disciplinar - a situação é ainda mais delicada. Todos eles conhecem as posições
assumidas pelo ex-chanceler em sua passagem pelo Itamaraty, quando, segundo
avaliam, ele "contrariou princípios e valores" dos militares.
Apesar de toda a contrariedade, os militares, disciplinados, não pensam em
tomar qualquer atitude contra o novo ministro da Defesa. Não há o que fazer,
além de bater continência para o sucessor de Nelson Jobim. Para os militares, a
escolha de Amorim tem "o dedo de Lula", dizem.
Dilma Rousseff é a presidente da República e cabe a ela escolher o novo
ministro da Defesa e, aos militares, acatar a decisão. "É quase como nomear o
flamenguista Márcio Braga para o cargo de presidente do Fluminense ou do Vasco,
ou vascaíno Roberto Dinamite como presidente do Flamengo", comentou um militar,
recorrendo a uma imagem futebolística e resumindo o sentimento de "desgosto" da
categoria.
"O governo está apostando na crise", observou outro oficial-general,
explicando que Jobim conquistou autoridade mas ninguém sabe como será a reação
da tropa caso haja algum problema que obrigue Amorim a fazer valer sua
autoridade.
O maior desafio para os militares é que, durante todo o governo Lula, Celso
Amorim usou a ideologia para tomar decisões e conduzir a política externa
brasileira. Além disso, Amorim priorizou a relação com Fidel Castro, de Cuba, e
Hugo Chávez, da Venezuela, além de Mahmmoud Ahmadinejad, do Irã.
"Ele colocou o MRE a serviço do partido", salientou outro militar,
acrescentando que temem, por exemplo, a forma de condução do programa nuclear
brasileiro. Isso porque Amorim sempre defendeu , segundo esses oficiais,
posições "perigosas" no que se refere aos programas de pesquisa que constam nos
planos das Forças Armadas.
Outro oficial salientou ainda que, em vários episódios, Jobim, saiu em defesa
dos militares, inclusive contra a posição de Amorim. "E agora, quem nos
defenderá?", observou ele, acrescentando que temem até o risco de uma certa
politização do processo de promoção dos militares.
Depois de reconhecer que os militares estão subordinados ao poder civil, um
oficial-general questionou por que colocá-los abaixo de outra categoria.
Outro militar fez questão de lembrar que, durante os anos em que foi ministro
das Relações Exteriores, Amorim nunca contrariou ninguém durante sua gestão e
quando sua posição foi colocada em xeque, mudou de opinião. Isso, na área
militar é muito ruim.
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