Dora Kramer:

A cassação do mandato de Demóstenes Torres obviamente não piora, mas também
não melhora a imagem do Senado que encerrou a carreira política de um de seus
pares sem, contudo, quitar a imensa dívida que acumula com a sociedade.
Em pé, de braços cruzados, acompanhando a sessão com um quase imperceptível
sorriso no rosto, Renan Calheiros era a materialização de uma evidência:
Demóstenes não caiu em decorrência do rigor ético dos senadores, mas por um
conjunto de circunstâncias para ele adversas.
Se o critério predominante fosse o zelo ao decoro parlamentar, Calheiros não
teria assistido à cena em posição tão privilegiada.
Assistiu porque foi absolvido a despeito de ter tido contas particulares (a
pensão da filha) pagas por um lobista de empreiteira, de ter mentido
apresentando a seus pares documentos falsos na hora da defesa.
Descontados os detalhes, na essência comportamento tão indecoroso quanto o de
Demóstenes, cuja situação se diferenciou basicamente por dois fatores: ausência
da rede de proteção - no caso de Renan extensiva do Palácio do Planalto à
sustentação de um partido de peso imenso (PMDB) passando pelo receio reverencial
de senadores intimidados - e a contradição entre o personagem que encarnava e as
ações ocultas que executava.
Ativos importantes com os quais não contou o agora ex-senador. Disso, aliás,
deu notícia em seu pronunciamento final recheado de sofismas. Numa desassombrada
conversão à lei não escrita da boa convivência na Casa assumiu o que na visão
dele foi seu "único erro".
Qual? Ser "intolerante" com os demais, perceber que não vale a pena "buscar a
fama" em cima do defeito alheio. Pediu perdão aos que "levianamente" ofendeu e a
todos aconselhou: "Não entrem por esse caminho".
Como legado do processo deixa uma lição. A austeridade, ainda que estudada e
presumida, não compensa.
Leia a íntegra em Léguas a percorrer
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