segunda-feira, 17 de maio de 2010

Súplica aos políticos

Blog da Maria Helena
Não discurses em meu nome, que eu não tenho tempo sequer para escutar o choro de meus filhos, misturado ao de meus colegas de infortúnio e no ruído dos carros que passam defronte meu barraco onde me escondo, quanto mais para defender-me de tuas vãs palavras. Não me peças para sorrir com as realizações que alardeias, que não vê-las em canto algum, alem de nem ter dentes para mostrar.

Não me uses como pretexto para subires na vida, que eu, meus pais e meus avós já te servimos de escada há muito tempo e força já não temos para suportar-te.

Não te escores em mim, que eu já tenho uma carga muito grande para carregar: seis filhos pequenos, mais um caminho, além de uma companheira que, coitada, nem consegue me ajudar. Não mostres teus carros importados porque tenho pernas abordadas de varizes de tanto caminhar atrás do emprego que tu me prometeu, sem achá-lo em parte alguma.

Não exiba tuas roupas caras porque meu corpo só se cobre com trapos que me dão meus bons irmãos de dura lida. Não reclames do salário que deste aos poucos amigos porque com ele não saciam sua fome. Não me fales palavras doces e mentirosas porque com teus atos já provaste, aqui e alhures, que elas em nada melhoram meu destino. Não me enganes mais com tuas promessas porque já destes mostras suficiente de que não és capaz de cumpri-las.

Não me exibas como objeto de tua preocupação porque tu nem tens ideia da vida que carrego. Não me incluas em tuas estatísticas espetaculares porque, por tua culpa, ela vem mostrando a que ponto degradante me levou. Não me firas com tua soberba quando, entre um uísque e outro, dizes que me defendes só para que os que te rodeiam acreditem que tu és um homem bom e muito sábio. Não me venhas com tuas idéias acadêmicas porque elas só alimentam a tua vaidade, mas não garantem o pão de cada dia.

Não me abraces em época de campanha porque teu corpo pode contaminar-me da torpeza de teu gesto. Não beijas meus filhos porque eles não são adornos para que políticos como tu pareças ser o que não são. Não me constranjas com tua saúde porquê os hospitais que tu criaste não tem meios para me curar. Não me humilhes com tua prosa enganosa porque eu nem conheço as palavras que empregas nos palanques e jornais.

Não me lembres a todo tempo que eu existo, porque minha vergonha quer esconder-me de tua incompetência e de teu eterno discursar. E, por favor, não me uses como massa de manobra, porque eu sou um homem simples, com ideias simples, com anseio simples, e cujo único desejo é o de um dia ser feliz como tu és, mas conservando em mim o sentimento de honra e de dignidade que de meu pai aprendi, mas que tu, infelizmente, não conheces.

Antonio Rodrigues Corrêa

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