segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Detido, Jefferson portou-se melhor que Dirceu


Há momentos em que os fatos submetem os homens a uma relação direta com o drama. São instantes pânicos. É quando as qualidades de um ser humano são submetidas a teste. Protagonistas do mensalão, Roberto Jefferson e José Dirceu viveram um desses momentos ao serem presos. Na comparação, Jefferson saiu-se melhor do que Dirceu.

Numa entrevista na porta de casa, Jefferson declarou-se “sereno e sensato”. Pouco antes de ser preso, resignou-se: “Eu tenho que passar por isso.” Por que optou em ir numa viatura da Polícia Federal e não num carro particular?, um repórter quis saber. Beneficiário de uma valeriana de R$ 4 milhões cujo destino jamais revelou, Jefferson respondeu: “…Eu estou preso, fui condenado, não tenho o que esconder.”

O algoz do petismo tratou como “uma gentileza da Polícia Federal” o fato de ser conduzido num automóvel de passeio. “Eu não me importaria se descesse no camburão, estou preso.” Deboche? “Não estou debochando de ninguém. Não sorrio da Justiça”, declarou Jefferson, esquivando-se da casca de banana jogada pelo repórter.

Noutra entrevista, dessa vez à Rádio Estadão, Jefferson foi lembrado de que o próprio ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, dissera que preferia morrer a ir para uma cadeia no Brasil. Não teme o sistema prisional?, perguntou-se ao condenado.

E Jefferson: “Eu não temo, não. Medo é um defeito que eu nasci sem ele. Isso é um defeito, não é uma virtude. Um homem tem que ter medo. Eu nasci, infelizmente, sem esse sentimento. […] E penso que Deus só dá carga para quem pode puxar. Deus não dá carga para fraco. É mais uma provação, mais um teste. E eu vou sair maior, mais equilibrado, mais sereno disso tudo.”

Preso no regime semiaberto, pretende pedir para trabalhar fora da prisão? “Vamos aguardar a liturgia da Justiça. Não adianta eu dar uma de Zé Dirceu. Ele fez uma maluquice, pediu pra trabalhar num hotel ganhando R$ 20 mil, não conseguiu nada. Vou esperar, com calma. A hora que eu puder, a hora que houver uma oferta real de um emprego em que eu possa trabalhar, aí eu peço essa autorização.”

Retorne-se ao primeiro parágrafo: Jefferson saiu-se melhor do que Dirceu na administração do seu momento pânico. Como distinguir um do outro? Até pouco tempo era fácil. Dirceu era o esquerdista. Jefferson, o direitista. Depois do governo Lula a ideologia não quer dizer mais nada. Pela biografia? De fato, eram diferentes. Mas foram igualadas no prontuário que anota o veredicto do STF: “culpados”.

O único jeito é imaginar Jefferson e Dirceu sendo atirados num tanque com água. Ambos deslocam suas massas no líquido. Mas as prisões revelaram que eles esperneiam de maneira diferente. Jefferson não levantou o braço nem fechou o punho. Poupou a plateia da pantomima revolucionária. Tampouco se autoproclamou preso político. Tomado pela coreografia, absteve-se de ofender a lógica e a inteligência do brasileiro.

Por Josias de Souza

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