quarta-feira, 15 de maio de 2013

50 tons de fascismo


Em evento do PT a que Dilma comparece, Lula ataca e imprensa, e Falcão e Tarso Genro ameaçam o jornalismo livre; a presidente preferiu chutar a oposição e os pessimistas – por Reinaldo Azevedo
É… Eles não estão para brincadeira. Se vão conseguir o que pretendem, isso não sei. Ontem foi a vez de Porto Alegre receber a caravana do PT para comemorar os 10 anos do partido no poder. A presidente Dilma Rousseff compareceu, o que é o fim da picada. Coisas assim, que eu saiba, são inéditas no mundo democrático. A razão é simples: como o pressuposto da democracia é a possibilidade de haver alternância no poder, partidos não comemoram a não alternância, ainda que tenha sido essa a vontade do eleitor. Mas vá lá. Isso é o de menos. Requer certo requinte teórico para ser percebido e um compromisso essencial e, ousaria dizer, ancestral com a democracia. Não era o caso ali de nenhum dos presentes. Lula discursou. E abusou da bobagem e da falta de lógica, mesmo quando se é Lula. Leiam esta fala, segundo transcreve Flávio Ilha, noGlobo.
“Eles (a mídia e a oposição) vivem exilados dentro do Brasil. Não estão compreendendo o que está acontecendo no Brasil. Por isso estamos caminhando fortemente para que Vossa Excelência seja presidente por mais quatro anos”.
Lula se refere a Dilma. Leiam de novo. Ele não sabe o que é uma locução conjuntiva conclusiva. Mas as locuções conjuntivas conclusivas continuam a existir, a despeito de sua ignorância. Vejam lá. Para o Apedeuta, a “mídia” e a oposição não compreendem o que acontece no Brasil. E então conclui: “por isso” Dilma será reeleita. A constatação inescapável: caso mídia e oposição tivessem, então, a devida compreensão, a presidente estaria enfrentando mais dificuldades… Como expressão da realidade, isso não faz sentido. No terreno da vigarice política, a fala se explica: o chefão do PT quer empurrar a imprensa para o terreno dos “derrotados” eleitorais — exceção feita, é evidente, aos veículos que puxam o saco do partido.
Rui Falcão, presidente nacional do PT, com a graça habitual e o pensamento sofisticado que tão bem o caracteriza, exibiu ao menos uma virtude: não tentou enganar ninguém. Pregou abertamente o controle da imprensa:
“Nossa missão fundamental é a reeleição da presidente Dilma, para que consolidemos nosso segundo grande salto e tornemos determinadas conquistas irreversíveis. Considero que as opiniões não podem ser de pensamento único dos grandes meios (de comunicação) monopolizados. Não é censura, mas não há como aprofundar a democracia com os conceitos dos proprietários e dos acionistas de jornais”.

Voltei
Entendi. Se é impossível “aprofundar a democracia com os conceitos dos proprietários e acionistas dos jornais”, entendo que essa consolidação terá de se dar sem eles, certo? Talvez Falcão tenha em mente, assim, uma coisa à moda venezuelana, equatoriana ou argentina…

Tarso Genro, governador do Rio Grande do Sul, o poeta do sêmen derramado, não se conteve:
“A oposição está sem rumo e sem projeto. E, quando a direita está sem projeto e se vê perdida, apela para a desconstituição da democracia até com atos de força ou para a manipulação da opinião pública por meio de grandes grupos monopolistas de mídia. Tenho certeza que vamos avançar porque estamos bem liderados”.

Comento
Alguém poderia me reportar algum ato “da direita” de “desconstituição da democracia” nos dias de hoje? Que eu saiba, quem está tentando cassar prerrogativas do Supremo Tribunal Federal é o PT. Quem saiu vociferando contra uma pobre blogueira cubana, impedindo-a de falar, foi o PT.

“Grupos monopolistas”? Onde está o monopólio? De quê? Especialmente em tempos da Internet, quem é dono da opinião? O PT, sim, se esforça par encabrestar a opinião. Todo mundo sabe que o dinheiro público, por meio de estatais e da administração direta, financia uma rede de difamação na Intenet, cuja tarefa é falar bem do partido e de seus aliados e difamar a oposição e a imprensa independente.
Digamos que a imprensa fosse mesmo antipetista… É mentira! Na média, vocaliza o pensamentos da esquerda, vamos dizer, “modernizada”. Insisto na hipótese: ainda que fosse, o PT ficará pelo menos 12 anos no poder, com boas chances de emplacar mais quatro anos. Ora, não é o próprio Lula a dizer que essa imprensa está “exilada”, a sustentar a sua irrelevância, a garantir que ela quer uma coisa, e o povo, outra? Logo, controlar o quê e pra quê?
É aí que bate o velho espírito totalitário, a única herança genuinamente esquerdista que os petistas conservaram: eles não querem crítica nenhuma. Eles querem silenciar os adversários — extingui-los se possível. Mas a imprensa é essa adversária? Ora, o jornalismo que se preza é inimigo não do PT, mas do autoritarismo.
Finalmente, Dilma
A presidente não fez bonito duas vezes: ao comparecer ao evento, absurdo em si, e ao fazer um discurso que ecoa, vejam que curioso!, a antiga linha dura do Regime Militar. Leiam a sua fala:
“Fazem o papel de pessimistas sistemáticos. Ao contrário deles, a visão sobre o Brasil é muito mais realista porque percebe o imenso potencial que temos. Fomos o país que durante a crise mais emprego criou no mundo, fato reconhecido pelo FMI. Um dos pratos prediletos de crítica é a fragilidade da Petrobras. Mas é extraordinário que (a estatal) tenha captado US$ 11 bilhões no mercado internacional a taxas baixas, o que é um reconhecimento à força da Petrobras.”

A presidente se referia às oposições daqui e à suposta visão que os estrangeiros têm do Brasil. Como esquecer o lema com que a linha dura militar tentou desmoralizar “os pessimistas” durante a ditadura? Vai a imagem:
Caminhando para a conclusão
Os petralhas me enviam dezenas de mensagens, todos o dias, me convidado cair fora do Brasil: “Se você não gosta do país, cai fora”.  Sim, sim, Dilma também reclamou da imprensa, com menos contundência.

Não, um evento dessa natureza não seria possível em nenhuma democracia do mundo. Tampouco um presidente se reuniria com seu antecessor e correligionário, em companhia da cúpula do partido, para demonizar a oposição e a imprensa, tratadas como sabotadoras do país.
É o comportamento desses luminares na democracia que nos dá uma pálida ideia do que teriam feito se tivessem sido bem-sucedidos (eles próprios ou seus antecessores ideológicos), no passado, em seu esforço de instaurar o Brasil uma ditadura comunista.
O fascismo, a exemplo do socialismo, não existe mais como ideia pura. Ambos foram ganhando, com o tempo, novos contornos. Acima, vão alguns dos tons do fascismo — ou do socialismo, tanto faz; eram irmão siameses.
Os donos de jornais que se cuidem. O presidente do PT está tornando a ameaça mais ampla. Se alguém acha que eles se contentariam apenas em dividir as Organizações Globo, eis um ótimo momento para renunciar à inocência. A famigerada Lei Falcão, aquele ministro do regime militar, seria brincadeira de criança perto de uma que seguisse os voos teóricos do Falcão do PT.

Um comentário:

Miriaklos disse...

Se estas pessoas querem implantar aqui um sistema totalitário, tal como eles veem em outros países, sem as liberdades que eles pretendem aqui tirar, eles sim, se acham que este países são bons, que deveriam ir para estes países fechados e nos deixar em paz.