quarta-feira, 6 de junho de 2018

Bolsonaro não tem o que dizer sobre economia ou Petrobras. Seu negócio é o mundo do macho: testosterona, com suor, chulé, pum e revólver



Jair Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República, tem ao menos uma qualidade como político — uma só e não vejo outra: ele não disfarça a sua ignorância nem poupa a audiência de seus raciocínios estúpidos. Não sei que infância teve este senhor nem me interessa. Tivesse ele vivido segundo os valores que veicula, em vez de um militar de carreira medíocre, que foi precocemente para a reforma e descobriu, na política, a mina de ouro, ele teria, sei lá, virado um Rambo. Mas não! Preferiu o conforto da vida parlamentar, fazendo políticos três de seus filhos, que emulam com o pai na arte de dizer barbaridades, e se ancorando no auxílio-moradia, que ele usava, declarou, para “comer gente”.

O pré-candidato do PSL participou de sabatina no “Correio Braziliense”. Fugiu de todas as questões relevantes sobre economia. A razão é simples. Ele não domina minimamente o assunto e, pode-se dizer a esta altura, não tem paciência para aprender. Compará-lo a um Lula é uma tolice. O petista optou por vários erros ao longo da sua vida política. Mas foi decisão, não falta de escolha. Sabia o que estava fazendo, mesmo quando o bom senso recomendava o contrário. Mas é um homem de esquerda e tem um compromisso histórico com o que os liberais achamos ser um erro. No caso de Bolsonaro, o papo é outro. Economia, pra ele, é javanês antigo. Ele sabe a respeito o que dita o seu fel e o que quer ouvir a sua plateia, que o considera sábio. Isso dá uma medida da qualidade intelectual dos admiradores.

Preço dos combustíveis? Ah, ele ataca os impostos — o que é, hoje, a crítica mais rasa que se pode fazer porque não depende da vontade de presidentes e porque não há espaço fiscal para diminuir a carga tributária do setor —, mas não diz se mudaria ou não a política de preços, não toca no monopólio do refino da Petrobras, não discute se há alternativas para seguir o mercado sem levar o país à guerra civil. Em suma, não é com ele. Vai ver, no limite, ele imagina um bando de fardados metendo bala em quem atrapalhar a sua “política”, seja ela qual for.

E sobre as privatizações? Frase de efeito: “Não é zerar as estatais, mas diminuir e o que puder jogar para a iniciativa privada, jogar”. Mas jogar o quê? Ele não diz, porque, afinal, isso seria com Paulo Guedes, o tal que se apresenta como seu pensador econômico. O que conhecemos a respeito do valente nessa área são seus votos: contra a quebra do monopólio do petróleo (extração), que era exercido pela Petrobras; disse “não” ao Plano Real; opôs-se à privatização das Teles e chegou a sugerir que FHC fosse fuzilado; votou contra o estabelecimento de um limite para gastos com funcionalismo; defendeu que deputados e senadores continuassem com aposentadoria especial; atacou a emenda que estabeleceu o teto de gastos e, segundo declarou, absteve-se na votação sobre terceirização.

Tivesse um pensamento sistêmico e não fosse um corporativista a granel — a depender do lobby que consegue influenciá-lo —, seria um petista. Noto que nem digo “lulista”. Em economia, no plano das ideias, Lula esta à direita de Bolsonaro. Guedes, no entanto, quer nos convencer de que será ele próprio, Guedes, a comandar a economia quando o outro estiver com a faixa no peito. Embora, até agora, o pré-candidato não tenha se comprometido com nada. Ou com quase nada.

Ele promete, sim, distribuir portes de arma — e, pois, armar a população — em um país que teve, em dados oficiais, 62.517 homicídios em 2016, o que ultrapassa em muito a situação de países em guerra civil. Desse total, 77,1% — quase 45 mil casos — das mortes foram provocadas por… armas de fogo. Dado o número de jovens do sexo masculino entre 15 e 19 anos que morreram em 2016, 56,5% foram assassinados; 52,4% na faixa de 20 a 24; 42,8% na de 25 a 29; 33% de 30 a 34; 22,7% de 35 a 39.

Os dados sobre o Brasil são típicos de países que passam por um processo de genocídio. Só não merece essa designação porque as mortes não têm a marca de uma luta étnica. O fato é que o desastre está nas ruas. Sua resposta? Ora, mais armas para o povo. No país de 700 mil presos, ele não quer saber se está trancafiado também quem deveria estar solto. Ele tem de atender ao clamor de sua patuleia e promete encher ainda mais os presídios. E tem uma resposta para a superlotação, que, obviamente, não passa nem pela construção de novos presídios. A sua pegada é outra: “Não vem com essa historinha ‘ah, os presídios são cheios e não vai recuperar ninguém’. É problema de quem cometeu o crime”.

É uma estupidez! Os partidos do crime, que comandam as cadeias e a bandidagem que está fora dela, são uma consequência da superlotação. Vejam o caso de Minas.

Mas não se acuse o homem de falta de clareza. Atendendo ao clamor dos grupos fascitoides que o veneram, ele acha que relevante, mesmo, no país, é debater a questão do politicamente correto. Ah, eu também combato as tentativas de censurar a linguagem ou de impor limites artificiais à liberdade de expressão em nome da “igualdade”. É debate para gente de miolos. Mas a coisa tem a sua versão descerebrada, que é a de Bolsonaro. Ao Correio Braziliense, disse: “No meu tempo de moleque, chamava você de gordinho, quatro olhos, não tinha problema nenhum. O gordinho, geralmente, quando ia para pelada, você chamava de gordo, ele saía na pancada. Hoje, o gordinho virou mariquinha. Vamos acabar com essa frescura. Isso não é o problema do Brasil. […] Essa questão de ódio é secundária”.

Vale dizer: essa questão, para ele, é secundária desde que as pessoas sejam livres para odiar e para expressar, então, o seu ódio. A chance de um gordo ou de um míope serem respeitados, no universo bolsonariano, é sair na porrada. Ou, então, estamos diante de um “mariquinha”. E ele também já deu a receita para um pai que percebe que o filho pode ser gay: dar um coro no garoto. Não consta que tenha recomendado o mesmo para as meninas lésbicas. O desprezo deste senhor pelas mulheres é tal que ele deve achar irrelevante que mulheres possam querer fazer sexo com mulheres. Ele é obcecado, como se nota em todas as entrevistas, pelo universo masculino. Ele é um candidato de machos para machos. Seu negócio é testosterona com fedor de suor e chulé de vestiário — de preferência, com a macharia coçando em público as partes pudendas e fazendo concurso de pum e arroto.

Bolsonaro gosta é do mundo dos machos que não são mariquinhas. Só aceita ser cercado por homens. De verdade! De preferência, armados.

Por Reinaldo Azevedo

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