sexta-feira, 14 de maio de 2010

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa

Encarando de frente



Brasileiros e Brasileiras, temos muito para enfrentar, ou, como prefere a candidata do PT, para “encarar de frente”.

Em primeiro lugar, sugiro que além de parar com o eufemismo simplório de nos referirmos à Dilma Rousseff como pré-candidata, “encaremos de frente” que o programa do PT transmitido ontem foi, ele sim, exuberante.

Da primeira à última cena serviu perfeitamente aos propósitos de Lula: mostrou, de modo claro e muito preciso, que ela é a candidata do presidente. De agora em diante, chega de “não posso dizer em quem estou pensando”, ou de subterfúgios dessa natureza. A candidata do Lula e do PT é Dilma Rousseff e a apresentação foi muito bem feita. Diria mesmo, foi excelente.

“Encaremos de frente”, também, que o programa não foi feito para a dondoca da Zona Sul carioca ou para a anoréxica elegante da Oscar Freire e sim para todos os brasileiros. Mais fácil uma casa sem geladeira do que sem televisão.

E o que foi que o programa apresentou? Uma candidata bonita, elegante, com pele, cabelos e sorriso nos trinques. Bem vestida, bem cuidada, e falando com voz educada e sem sombra de hesitação. E um mestre/guru também muito simples, um ser que há muito não víamos: o Lula sem estar “tiré aux quatre épingles” ou fantasiado de sul-americano. Uma camisa social branca, sem gravata, um homem comum, gente como a gente.

“Encarando de frente”, vejo a emoção que esse programa vai despertar pelo país a fora. Não adianta fugir de um fato consumado: o programa foi muito bom e com toda a certeza vai mexer com a alma dos que amam apaixonadamente o mito, o tal “mito que está acima do Bem e do Mal”.

É verdade que o programa teve uma ajudinha do TSE? É. Esse é outro fato para “encararmos de frente”. A Justiça Eleitoral se deixou levar, custou a agir, quando agiu o programa já estava nas casas dos brasileiros, no sacrossanto horário da novela das 8 e a decisão do TSE foi, com o perdão dos meritíssimos, engraçada a mais não poder: o PT só vai poder apresentar outro programa partidário em 2011!

O texto do programa é malandramente acintoso? É. Lula/Dilma contra FHC/Serra? O que é isso? Alguma vez Serra foi chefe da Casa Civil de FHC? Em algum momento a candidata do PT foi ministro da saúde de Lula?

Mas são esses detalhes, repetidos e repetidos e repetidos, que colam na cabeça do povo; são frases tipo “teve sua competência reconhecida por todos os gaúchos” ou “ela mistura a ternura dos mineiros com a intrepidez dos gaúchos”, criadas especialmente para encantar o eleitor do Sudeste e do Sul, que poderão alterar, a favor da candidata do PT, o voto ainda arredio.

Não voto no PT. Já votei em 2002 e uma vez a Cascais, nunca mais. Mas não durmo de touca e creio que a equipe que faz a campanha da Oposição vai ter que “encarar de frente” o sucesso do programa do PT e tratar de fazer algo melhor. Pode começar lembrando que, infelizmente, o sonho que a candidata petista diz ter só começou a ser sonhado agora, quando não é mais ela quem manda, pelo menos às claras, no Governo Lula. Ao contrário: saúde, educação e segurança são o pesadelo desta nação, em todos os seus quadrantes.

Pode também fazer ver ao presidente Lula que sua comparação Dilma/Nelson Mandela foi fraca. Ainda mais quando ele nos lembrou o maior sonho de Mandela: a união de todos os povos e nações que formam a África do Sul e o continente africano. Mandela, que se saiba, jamais faria o que Lula faz continuamente: jogar pobres contra ricos, pretos contra brancos, ignorantes contra instruídos, nordestinos contra sulistas.

Ah! e é bom o PT também “encarar de frente” um aspecto de seu programa, intencional, sem dúvida, mas arriscado: a certeza do voto nordestino é tanta que o Nordeste ficou de filho enjeitado... nem um dos dois se lembrou dele (ou o teleprompter apagou a palavra ao recordar que o Nordeste é outro país?).

Arriscado foi. E se os nordestinos se magoarem com a negligência? Ih... espera aí, MH. Será que lá no Nordeste o TSE irá permitir outro programa do PT ainda este ano? Será que foi com essa certeza que o PT se deu ao luxo de não falar naquela região e de não levar nem um ministro de lá para elogiar a candidata?

Precisamos “encarar isso de frente” também...

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