
Em 2011, houve 4.194 homicídios no Estado de São Paulo,
que tem 42 milhões de habitantes. Dividindo-se o número de ocorrências por 365,
tem-se uma média de 11,65 mortes por dia. Imaginem se a imprensa fosse
transformar em notícia, em tom de alarme, cada uma dessas mortes. Viver-se-ia a
impressão, como se vive nestes dias, de que há uma guerra civil no estado.
OCORRE, VEJAM VOCÊS, QUE ESSAS 4.194 OCORRÊNCIAS COLOCARAM O ESTADO EM
ÚLTIMO LUGAR NO RANKING DOS HOMICÍDIOS POR 100 MIL HABITANTES ENTRE AS 27
UNIDADES DA FEDERAÇÃO: 10,1. Dito de outro modo: considerando-se o
tamanho da população, São Paulo é o estado em que menos se mata.
É essa a sua impressão, leitor amigo? É essa a impressão
dos seus amigos? É essa a impressão dos telespectadores? Essa informação nem
mesmo vai parar na TV. O Jornal Nacional, por exemplo, ignorou solenemente esse
dado ontem, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Também não se
informou que, em 2011, o governo federal gastou R$ 1,5 bilhão a menos com
segurança pública do que em 2010. Mas vimos lá o “serioso” ministro da Justiça a
prometer empenho no combate à violência.
Escrevi alguns posts a
respeito. O mais completo está aqui. Estou querendo negar o
surto de violência que já matou 90 policiais neste ano? Não mesmo! Ao contrário:
acho que ele requer que se apele à lei que temos para punir severamente os
culpados (trato disso em outro post). Estou querendo que a imprensa
omita as mortes? Também não! Mas esperem: o Brasil tem uma média de 50 mil
homicídios por ano! Vale dizer: onde vivem os outros 148 milhões de brasileiros
(190 milhões menos a população de São Paulo), ocorrem, então, 45.806
assassinatos (subtraí de 50 mil os números de 2011). Entenderam a matemática da
coisa? Se, em São Paulo, há 10,1 mortes por 100 mil, no resto do país, há quase
o triplo (na média). Há estados em que os números são mais
escandalosos.
Quantos morreram ontem no Rio e onde? Quantos morreram
ontem em Alagoas e onde? Quantos morreram ontem em Pernambuco e onde? Quantos
morreram ontem na Bahia e onde? Se o estado em que se mata proporcionalmente
menos merece essa cobertura quase caso a caso, por que não se usa o mesmo
procedimento nos demais? É inegável que isso cria uma distorção que agride os
fatos. Não é só isso, não! Há procedimentos ainda mais graves em curso. Vamos
lá.
Eu não tenho dúvidas de que o PCC está por trás do
assassinato de policiais — o que, entendo, é atitude que pode ser classificada
de terrorista. Não havendo ainda uma lei para punir esse tipo de crime, há outra
disponível (ler post a respeito). Mas também é evidente que bandidos
não necessariamente ligados ao partido do crime pegam carona na onda alarmista.
Tudo o que um marginal deseja é ver a sua obra assinada. Há, nesses casos, o
chamado efeito imitação. A depender de como se noticia que um ônibus foi
incendiado, é certo que outros ônibus serão incendiados.
Ontem, no Jornal Nacional,
José Roberto Burnier viu um rapaz fechando um bar em Brasilândia. O rapaz
afirmou que havia ameaças e tal. O repórter não teve dúvida: anunciou a
existência de um suposto toque de recolher na região. O dono do estabelecimento
disse que iria voltar para o Ceará porque era mais “tranquilo”. Segundo o
“Anuário da Violência de 2012”, houve naquele estado, em 2011, 30,7 mortes por
100 mil — o triplo de São Paulo! O que certamente é mais “tranquilo” no Ceará é
o noticiário… A Polícia não constatou toque de recolher nenhum. Para baixar a
íntegra do anuário, clique aqui.
Querem outro dado interessante? Com 16 milhões de
habitantes, houve 4.009 homicídios no Rio — quase o mesmo número absoluto de São
Paulo, embora tenha uma população muito menor. Segundo o anuário, o estado teve
no ano passado 24,9 mortes por 100 mil habitantes, mais do que o dobro do estado
vizinho. São 10,98 assassinatos por dia. Houve uma queda? Houve, sim! Mas os
números, se o caso é fazer alarme e alarde, são muito piores. Não obstante, o
Rio é apresentado como referência do que se poderia fazer em São Paulo. Seria
uma piada cretina se não se tratasse, lamento, de politicagem.
Hoje, infelizmente, o crime, organizado ou desorganizado,
virou uma espécie de pauteiro de setores da imprensa de São Paulo. É como se
eles preparassem o espetáculo na certeza de que terão audiência.
Por Reinaldo Azevedo
Um comentário:
Clovis comentei sobre este assunto ainda ontem com um dos meus amigos. Parece que quanto mais as emissoras de TV mostram os assassinatos, quase em tempo real mais o crime organizado está presente, ou seja, as pessoas que agem para o mau se sentem importantes em ver algo que eles fizeram e que acham que nunca vai ser revelado, mais que eles " os assassinos " comentam entre si, é nois na fita mano. Acredito que isso ocorra para desviar o foco da policia, para que eles tenham sucesso em alguma outra trama. Agora a sensação que dá é que quanto mais as emissoras divulgam mais eles atacam.
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