Por Nelson Motta
Tenho muito respeito e gratidão por quem me faz rir. Dou imenso valor aos
comediantes que se expõem a todos os ridículos e constrangimentos só para nos
divertir e alegrar. Acredito que rir, principalmente de si mesmo, ou refletido e
identificado num personagem, ajuda muito a viver as durezas do cotidiano e a
enfrentar as fraquezas e precariedades da condição humana.
Ao mesmo tempo acredito na força devastadora do humor como arma de crítica,
que pode ser mais potente e eficiente do que a força bruta, porque é capaz de
destruir pelo ridículo e pelo riso os mais sérios e sólidos adversários.
Porque basta ser humano e viver a vida para ser uma potencial fonte
inesgotável de piadas e deboches para qualquer um com senso de humor e de
crítica.
Mas o humor também é amor: já fiz os papéis mais ridículos só para divertir
minhas filhas. E também pode ser rancor, dos que sempre perguntam: “Tá rindo de
quê?”
Muitas vezes uma saraivada de piadas engraçadas pode ser mais contundente do
que discursos inflamados. Mas as piadas têm que ser boas, e bem contadas, porque
piada é timing. E não há nada mais triste do que piada mal contada, quando é
gaguejada e perde o tempo e a graça.
Outras piadas só aparecem com o tempo. Hitler e Mussolini eram adorados pelas
multidões nazifascistas como deuses olímpicos e épicos, mas hoje suas figuras
grotescas gesticulando e gritando seus discursos histéricos são ridículas e
hilariantes. Pena que tanta gente morreu para que se pudesse rir em
liberdade.
O humor e as piadas corrosivas — porque engraçadas — tiveram um papel muito
importante na resistência democrática, desmoralizando o autoritarismo e a
truculência da ditadura e fustigando os políticos onde mais lhes dói, no orgulho
e na vaidade, com piadas e apelidos devastadores e gargalhadas vingadoras.
O humor não é o forte dos políticos, mas justiça se faça a esse talento de
Paulo Maluf. Ouvir aquela inconfundível voz anasalada cantando “olê olê olê olá,
Lu-lá, Lu-lá” fez o Brasil gargalhar e teve uma carga de critica política mais
poderosa do que qualquer discurso da oposição. Ou da situação.

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