Era o esperado: não há dinheiro para manter a demagogia cotista, que solapa o mérito, um valor fundamental do conhecimento.
Estadão
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Quando o governo divulgou o decreto e a portaria que regulamentam a Lei de
Cotas, que reserva 50% das vagas em universidades federais a estudantes oriundos
da rede pública de ensino médio e a estudantes pobres, pretos, pardos e
indígenas, alguns reitores reclamaram que não dispunham de recursos suficientes
para custear as aulas de reforço, oferecer cursos de nivelamento e oferecer
moradia e alimentação para os cotistas.
O mais veemente foi o reitor Roberto Salles, da Universidade Federal
Fluminense. Ele reclamou da insuficiência de verbas do Programa Nacional de
Assistência Estudantil (Pnaes) e afirmou que, se o governo não garantir auxílio
financeiro, muitos cotistas não conseguirão concluir os cursos. Só o aumento das
verbas evitará evasões, afirmou. "O problema é dramático. Precisamos fazer com
que o estudante continue na universidade e se forme", diz a pró-reitora de
graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Angela Rocha.
Em resposta, o Ministério da Educação (MEC) divulgou nota afirmando que os
recursos do Pnaes quadruplicaram, entre 2008 e 2012, e informando que o Programa
de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais
(Reuni) "viabilizou" a construção de moradias e restaurantes universitários nas
instituições mantidas pela União.
Duas semanas depois do início dessa polêmica, os integrantes do Fórum
Nacional de Pró-Reitores de Assuntos Comunitários e Estudantis (Fonaprace)
fizeram as contas e divulgaram o volume de recursos de que precisam para
implementar a Lei de Cotas, como quer o Palácio do Planalto. Segundo eles, as
universidades federais precisarão de pelo menos R$ 2 bilhões para arcar com os
gastos de transporte, alimentação, moradia e assistência pedagógica dos cotistas
que ingressarão em 2013.
Esse valor é quase quatro vezes superior aos recursos previstos para o Pnaes
para o próximo ano. "Os recursos atuais de assistência estudantil são
insuficientes. Não conseguimos atender à demanda de 44% dos estudantes das
universidades federais que são das classes C, D e E", afirma o coordenador do
Fonaprace, Ronaldo Barros. "Questões sobre bolsas, transporte, residência
estudantil e necessidades de novos restaurantes universitários têm impacto nas
contas da universidade", diz o pró-reitor de graduação da Universidade Federal
do Ceará. Isso mostra que eram os reitores - e não os burocratas do MEC - que
estavam com a razão, na polêmica em torno das verbas necessárias para a
implantação da Lei de Cotas.
Nos debates do Fonaprace, o reitor da Universidade Federal do Ceará fez uma
observação importante. Segundo ele, quando as autoridades educacionais começaram
a pressionar os dirigentes das universidades federais para implantar a Lei de
Cotas já no vestibular de 2013, alguns reitores reagiram com sensatez, afirmando
que essa lei foi sancionada pela presidente Dilma depois de definido o orçamento
do Pnaes para o próximo ano. Apesar da advertência, dizem os pró-reitores de
assuntos comunitários, o Palácio do Planalto continuou exigindo a implantação da
Lei de Cotas nos próximos vestibulares, ao mesmo tempo que continuou garantindo
que as verbas do Pnaes serão suficientes para atender às necessidades das
universidades.
Professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e
especialista em gestão e avaliação educacional, Ocimar Munhoz Alavarse lançou um
alerta após a divulgação dos cálculos do Fonaprace sobre o montante de recursos
de que as instituições federais de ensino superior necessitam para implantar a
Lei de Cotas. "A cada ano teremos um contingente maior de alunos cotistas, o que
pode tornar complexo esse problema de assistência estudantil, que não vem de
hoje."
Nos três últimos anos, os vestibulares das universidades federais foram
prejudicados pelas trapalhadas no Enem. Agora, o processo seletivo será
prejudicado pela pressa com que o governo, pensando nas eleições municipais,
quis aplicar uma lei demagógica. É desse modo que a educação tem sido gerida.
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