
O Brasil de Bolsonaro deixou o Pacto Global de Migração sem uma miserável explicação razoável para tanto. O presidente brasileiro chegou a dizer que os migrantes que aqui chegam têm de saber ao menos cantar o nosso hino — exigência que, por óbvio, não se deve fazer à esmagadora maioria dos brasileiros. Eu duvido que ele próprio saiba onde está o sujeito na frase “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heroico o brado retumbante”. Diria sem consulta prévia o que é “lábaro”? E o que significa “garrida”?
Em Davos, também estarão as ONGs que se ocupam da preservação do meio ambiente, quesito de que, ora vejam!, o Brasil até poderia se orgulhar. Mas o berreiro desastrado, que resultou na ameaça de deixar o Acordo de Paris, passou e passa a impressão contrária. Ainda nessa área, Ricardo Salles, o novo ministro, simplesmente suspendeu por 90 dias os contratos com todas as ONGs que atuavam no setor. Vai submetê-los a uma espécie de auditoria. A prática não está em nenhum manual respeitável de gestão e atende, mais uma vez, à peroração ideológica. Em entrevista à Folha, falando sobre o acordo, afirmou Salles: “Aquilo que não estiver alinhado com o que a gente quer, por qualquer razão que seja, nós não faremos. Ah, mas é o que o consenso internacional quer? Ué, vai ficar querendo.”
Gostem os antiglobalistas ou não, também a questão dos direitos humanos é um valor que foi adotado pelos ricos. Não sei se isso se deve a alguma tramoia marxista — tendo a achar que não porque as esquerdas mundo afora não nutrem grande simpatia pelo Fórum… Algumas palavras de ordem que serviram à disputa eleitoral certamente não poderão ser repetidas naquele ambiente. E espero que Bolsonaro resista à tentação de fazer da sua mão uma arma, gesto que virou emblema de campanha. Lula saiu de Davos em 2003 muito maior do que entrou. Tomara que o mesmo aconteça com Bolsonaro.
Por Reinaldo Azevedo
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