sábado, 7 de outubro de 2023

Crime organizado pulveriza plano anticrime do governo



A criminalidade pulverizou o plano anticrime de Flávio Dino em menos de uma semana. Na segunda-feira, o ministro da Justiça lançou em Brasília o seu Enfoc, Programa Nacional de Enfrentamento às Organizações Criminosas. No capítulo emergencial, o embrulho continha reforço policial e monetário para Bahia e Rio de Janeiro. Na quinta, duas chacinas desafiaram as autoridades nessas dois estados.

Numa, quatro médicos paulistas foram crivados de balas na orla carioca. Três morreram. Noutra, uma família inteira foi passada nas armas na cidade baiana de Jequié. Os assassinos não pouparam nem mesmo uma criança de cinco anos. Houve seis mortes —sete se for levado em conta que uma das vítimas estava no nono mês de gravidez. Ficou mais uma vez entendido que o crime organizado não teme o estado brasileiro.

Pior: os criminosos incorporam suas vernissagens de cadáveres à paisagem das autoridades. Flávio Dino desembrulhava seu pacote de segurança em Salvador, ao lado do governador petista Jerônimo Rodrigues, quando os corpos da chacina de Jequié foram pendurados nas manchetes. Nesta sexta-feira, descobre-se que a polícia do Rio localizou os corpos de bandidos suspeitos de participação na execução dos médicos. Teriam sido condenados à morte pelo tráfico por ter matado as pessoas erradas. O alvo seria um miliciano parecido com um dos médicos.

O crime é autossuficiente. Elege os alvos, financia a execução e mata os matadores em caso de erro. O Estado é mais lento. Afora o atendimentos às emergências baiana e carioca, o plano anticrime de Dino possui cinco eixos genéricos e uma promessa de que serão detalhados posteriormente. O ministro talvez precise incluir no seu cronograma o planejamento do insolúvel.

A percepção de que a insegurança se tornou algo indissolúvel produz um fenômeno nefasto. Há uma certa domesticação do horror. O país passa a tratar a morte e a violência como anormalidades da vida normal.

No Rio, o quiosque onde foram assassinados três médicos foi reaberto na manhã desta sexta-feira como se o sangue não tivesse escorrido entre suas mesas na véspera. O congresso de medicina que antecipou o encontro dos médicos paulistas com a morte manteve sua agenda.

É como se o país negligenciasse a própria derrocada para manter a criminalidade à margem de sua realidade paralela. O diabo é que a reincidência do crime conspira contra o desejo de fingir. O problema da segurança pública no Brasil não é político nem jurídico. É dramático!

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Papel dos militares nada tem a ver com a arbitragem de conflitos



Tão logo Luíz Roberto Barroso, presidente do Supremo Tribunal Federal, achar conveniente, a mais alta Corte de Justiça do país esclarecerá mais uma vez quais são as atribuições dos militares.

Elas estão definidas na Constituição, mas os militares as interpretam ao seu gosto. Uma ação do PDT levará o tribunal a debruçar-se de novo sobre o assunto. A primeira vez foi em 2020.

À época, em decisão provisória, o ministro Luiz Fux declarou que as Forças Armadas não exercem poder moderador em eventual conflito entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário

Foi nessa linha que se manifestou, ontem, a Advocacia-Geral da União (AGU):

“Deve-se afastar qualquer interpretação que confira atribuição moderadora às Forças Armadas, inexistindo entre suas funções a possibilidade de arbitramento de conflito entre os Poderes”.

A legislação determina que o presidente da República tem autoridade suprema em relação às Forças Armadas, mas isso só pode se dar “dentro da moldura constitucional”, diz a AGU.

Brasil consolida-se como mais antigo país do futuro do mundo



Celebrou-se neste 5 de outubro de 2023 o aniversário de 35 anos da Constituição que Ulysses Guimarães batizou de "cidadã". Reuniram-se no Congresso para celebrar a data os caciques da República. Estão em pé de guerra. Mas simularam harmonia. "Não vejo nenhuma crise", disse Rodrigo Pacheco. Para Luís Roberto Barroso a cerimônia demonstrou que há "plena harmonia e independência" entre as instituições. Coube a Arthur Lira sinalizar que a concórdia é cenográfica: "Um Poder não pode ser a bigorna e outro o martelo."

Difícil saber quem faz o papel de bigorna. Mas não há dúvida de que o martelo maltrata a cabeça dos brasileiros. O cidadão não aguenta mais a euforia cívica que costuma inundar a alma das autoridades a cada aniversário da Constituição de 88. Restaram duas escassas alternativas. Ou você é otimista ou é inteligente o bastante para detectar a empulhação. No momento, o grande avanço é a percepção de que a esperança é a última que mata.

Embora esteja repleto de imperfeições, o texto constitucional não é o problema. Nele, há um pote de mel repleto de direitos. O livrinho conserva a aparência de um guarda-chuva sob o qual o cidadão encontra proteção contra todas as intempéries. A questão é que a ausência de autoridades com disposição para converter palavras em inclusão social e aprimoramento institucional acaba convertendo a democracia moderna numa espécie de ferrão de abelha.

Em 1985, no alvorecer da redemocratização, não havia no Brasil telefone celular, TV a cabo, antena parabólica e cerveja em lata. Hoje, o progresso tornou-se um bem mal compartilhado. Em plena Idade Mídia, as redes sociais converteram-se em plataformas de promoção do ódio. O veneno infectou os valores democráticos.

A perspectiva de prosperidade é anterior à Constituição de 88. Stefan Zweig, autor austríaco mundialmente conhecido, publicou em 1941: "Brasil, País do Futuro." Nessa obra, Zweig anotou que o Brasil "quase não deveria ser qualificado de um país, mas antes de um continente, um mundo com espaço para 300, 400 milhões de habitantes, e uma riqueza imensa sob este solo opulento e intacto, da qual apenas a milésima parte foi aproveitada."

A opulência sob o solo já não está tão intacta. Trama-se até a prospecção do óleo armazenado nas profundezas da foz do Amazonas. Mas o proveito das riquezas é para poucos. O Brasil pós-Zweig ainda é um país desigual. O escritor já não está entre nós. Suicidou-se. Com os olhos voltados para o futuro, Zweig não suportou o presente de oito décadas atrás.

No momento, a proteção constitucional de 1988 revela-se precária como um guarda-chuva sem o pano que o recobre. Por ele passam, sem anteparos, a insensatez e todas as marteladas que maltratam os brasileiros e sua democracia. Vivo, Stefan Zweig talvez constatasse que o Brasil se tornou o mais antigo país do futuro do mundo.

VAR judicial não elimina dúvidas sobre agressão a Moraes



No inquérito sobre as agressões que Alexandre de Moraes diz ter sofrido no aeroporto de Roma, a Polícia Federal convive com três versões: a do ministro agredido, a dos bolsonaristas agressores e a versão verdadeira. Imaginou-se que as imagens fornecidas por autoridades italianas serviriam como um tira-teima. Entretanto, ao prorrogar as investigações por dois meses. Dias Toffoli, relator do caso no Supremo, sinalizou que as dúvidas sobreviveram à análise do VAR judicial.

Não há som nos vídeos captados em Roma. O relatório enviado pela PF ao Supremo é, basicamente, uma descrição do gestual. Os investigadores mantiveram suas avaliações no gelatinoso universo linguístico do condicional.

A PF anota que Roberto Mantovani "parece afrontar e desafiar o filho do ministro", enquanto sua mulher Andreia Munarão, "aparentemente, continua a gritar, apontando o dedo indicador para ele [o primogênito de Moraes] ou para alguém próximo." Mantovani "parece bater as costas de sua mão direita no rosto" do filho do magistrado. Atingiu os óculos e, "aparentemente", deslocou-os. Mas "não chegam a cair no chão".

Fica entendido que houve um entrevero em Roma. Porém, está claro também que a PF precisa da contribuição de testemunhas. Moraes diz ter sido chamado de "bandido, comunista e comprado." A família Mantovani diz não ter pronunciado tais ofensas. O empresário nega também ter agredido o filho do ministro.

O Var de Roma mantém a palavra do agredido contra a do agressor. A hipótese de condenação continua em pauta. Mas será difícil tipificar o crime —injúria?, calúnia?, lesão corporal?— e fixar o tamanho da pena sem encontrar elementos que ajudem a dimensionar a ofensa.

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Servidor da Receita que violou dados de opositores de Bolsonaro é demitido pelo Ministério da Fazenda


O ministro da Fazenda, Fernando Haddad — Foto: Diogo Zacarias/Ministério da Fazenda

O texto aponta que Feitosa já respondia a um Procedimento Administrativo Disciplinar (PAD). O PAD foi concluído e recomendou a demissão do servidor.

“O MINISTRO DE ESTADO DA FAZENDA, no uso da atribuição (…) resolve: Demitir RICARDO PEREIRA FEITOSA, Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil, matrícula SIAPE nº 1368649, por valer-se do cargo para lograr proveito pessoal ou de outrem, em detrimento da dignidade da função pública, com restrição de retorno ao serviço público federal”, diz o DOU.

Feitosa é apontado como o servidor responsável por devassar dados fiscais de adversários políticos de Jair Bolsonaro durante o último governo. Antes de assumir o posto, ele dava expediente como auditor fiscal da delegacia da Receita Federal em Cuiabá.

No comando da Inteligência da Receita, durante o governo Bolsonaro, Feitosa acessou e copiou dados fiscais sigilosos de opositores do ex-presidente. Segundo documentos obtidos pelo jornal "Folha de S. Paulo", um dos alvos do levantamento foi Eduardo Gussem, então procurador-geral de Justiça do Rio e responsável pelas investigações do suposto esquema de rachadinha dentro do gabinete de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), denúncia posteriormente arquivada.

Também foram alvos das devassas dois políticos que haviam rompido com Jair Bolsonaro, o empresário Paulo Marinho, suplente de Flávio no Senado, e o ex-ministro Gustavo Bebianno, que morreu em março de 2020.

A pretexto de enquadrar o STF, Senado piora o que já melhorou


Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) realiza reunião com 15 itens. CCJ do Senado aprovou na manhã desta quarta-feira (4) uma PEC que altera as regras para pedido de vista e para decisões individuais.Mesa:presidente da CCJ, senador Davi Alcolumbre (União-AP);senador Paulo Paim (PT-RS).Foto: Pedro França/Agência Senado

Operando no modo chantagem, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou em 42 segundos proposta de emenda à Constituição que interfere no funcionamento do Supremo Tribunal Federal. A pretexto de aperfeiçoar o sistema decisório da Corte para prover segurança jurídica, os senadores pioraram o que Rosa Weber havia melhorado. Ignoraram resolução aprovada pelo Supremo em dezembro de 2022.

A proposta prevê que pedidos de vista passem a ser coletivos. E fixa prazo para a devolução dos processos em nove meses -seis, renováveis por mais três. Um retrocesso. Na resolução aprovada sob Rosa, o antídoto contra os pedidos de vista-bloqueio é mais eficaz. Manteve-se a prerrogativa dos ministros de requisitarem a vista. Mas, para evitar o engavetamento indiscriminado, os processos serão automaticamente liberados para análise dos demais ministros após um prazo de 90 dias.

A emenda do Senado proíbe a concessão de decisão monocrática que suspenda leis ou atos normativos que atinjam a coletividade, atos do presidente da República ou dos presidentes da Câmara, do Senado e do Congresso. Prevê também que decisões liminares tomadas individualmente sejam submetidas ao colegiado em até quatro meses. Na resolução providenciada por Rosa, medidas cautelares decididas na canetada por apenas um ministro precisarão, em casos de urgência, ser imediatamente submetidas à análise dos demais integrantes do plenário ou da Turma responsável.

Líder da chantagem, o senador Davi Alcolumbre, presidente da comissão de Justiça, não está interessado em melhorar o Supremo. Olha para o próprio umbigo. Candidato à presidência do Senado, opera para obter a simpatia e os votos da bancada bolsonarista.

Luís Roberto Barroso, o sucessor de Rosa Weber, reagiu instantaneamente. Declarou-se contra ideias controversas como a fixação de mandato para os magistrados e extravagantes como um projeto que autoriza o Congresso a derrubar decisões não unânimes do Supremo — uma bizarrice que vigorou no velho Estado Novo, durante a ditadura de Getúlio Vargas. Evocou em defesa do Supremo a ação redentora contra o negacionismo que infelicitou os brasileiros durante a pandemia e o golpismo que ameaçou a democracia. 
Tudo verdade.

Referindo-se especificamente ao conteúdo da PEC aprovada na votação relâmpago da comissão de Justiça, Barroso declarou não ver razões para mexer no funcionamento do Supremo. Meia verdade. É preciso levar a sério os avanços obtidos sob Rosa.

Por exemplo: Em decisão individual, o ministro Nunes Marques suspendeu as quebras de sigilo que a CPI do Golpe impôs ao bolsonarista Silvinei Vasques, o ex-chefe da Polícia Rodoviária Federal. Diante da péssima repercussão, Nunes Marques liberou a liminar para apreciação da Segunda Turma. O início do julgamento foi marcado para 20 de outubro, dois dias depois da data de encerramento da CPI.

Ou seja: A blindagem fornecida por Nunes Marques a Silvinei foi assegurada, pois a CPI não poderá mencionar em seu relatório final os dados sobre os sigilos bancário, fiscal e telemático do suspeito.

Todo brasileiro comprometido com o aperfeiçoamento institucional deve torcer para que a esquisitice aprovada na comissão de Justiça seja bloqueada no plenário do Senado. Simultaneamente, convém cobrar seriedade das togas. Para exigir respeito externo, o Supremo precisa se dar ao respeito.

O golpismo de gravata. Ou: Enfraquecimento do STF só serve aos fascistoides




Depois do 8 de janeiro, quando assistimos ao ataque da horda vestindo camiseta amarela, é chegada a hora de considerar outras formas de ser do golpismo. Pode, por exemplo, se apresentar de gravata. Dois eventos nesta quarta merecem ser vistos mais de perto.

O primeiro: David Alcolumbre (União-AP), que preside a CCJ do Senado e é a verdadeira mão que balança o berço de Rodrigo Pacheco (PSD-MG), que o sucedeu no comando da Casa, quer voltar ao posto em fevereiro de 2025 — ainda está longe, mas essa gente é precavida. E transformar o Supremo em alvo é uma de suas ferramentas para atingir tal intento.

O segundo evento: o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), participou de uma homenagem aos 35 anos da Constituição e defendeu que cada Poder se mantenha nos seus limites constitucionais. Parte da imprensa sustentou — já com a boca torta de tanto usar o cachimbo da porrada — que se tratava de um "recado" ao tribunal. Não me parece. Fato: uma cadeia de porra-louquices fez o deputado parecer um moderado. E isso nos relata um tanto do atual estado de coisas

ALCOLUMBRE

Falemos de Alcolumbre. Presidiu o Senado em 2019 e 2020 e não pôde se recandidatar para a função porque a Constituição veda a recondução de um parlamentar ao mesmo cargo da Mesa por dois biênios seguidos numa só legislatura. Pacheco e Lira completarão dois mandatos seguidos porque os exerceram nos dois anos finais de uma legislatura e nos dois iniciais de outra. Aí pode.

O político do Amapá, que sempre foi a sombra mais do que consentida de seu sucessor, quer voltar a ser o titular do cargo também de direito, não só de fato. E resolveu fazer mais do que política de boa vizinhança com o bolsonarismo. Está mesmo decidido a ganhar o seu podre coração. E tem conseguido. É um mestre do jogo ambíguo: caso se arranje com a "reacionarada", tentará transformar a candidatura em fato consumado, buscando impor-se também à base governista. Um verdadeiro pacificador, não é mesmo? Inclusive quando indica ministros...

E eis, então, que o homem resolveu voltar suas armas contra o STF. Nesta quarta, numa votação-relâmpago, de espantosos 42 segundos, a CCJ aprovou uma PEC do senador morista-bolsonarista Oriovisto Guimarães (Podemos-PR), que impõe limites a decisões monocráticas dos magistrados e uma disciplina para a devolução de votos-vista. A estrovenga passou pela CCJ, embora seja inconstitucional. Afinal, um Poder não pode regular a rotina de funcionamento de outro. Trata-se de matéria prevista no Regimento Interno daquela Casa de Leis, que foi recepcionado pela Constituição de 1988.

De resto, ainda que o troço fosse aprovado e que não tivesse a inconstitucionalidade declarada, versaria sobre matéria já arbitrada pela própria Corte, que impõe mais celeridade do que a porcaria aprovada na comissão. Não tem grande importância nem acho que prospere. O que se quis mesmo foi um pretexto para arreganhar os dentes para o tribunal, além de dar piscadelas à extrema-direita.

OUTRAS INICIATIVAS

Outras iniciativas estão em curso, com o apoio de alguns bocós na imprensa que, não sendo extremistas de direita, são idiotas o suficiente para tratar os 11 magistrados o fator de desestabilização da democracia. O presidente do Senado resolveu apresentar uma PEC criminalizando o porte de droga, não importa qual, porque disse que os ministros estariam usurpando o papel dos parlamentares ao definir uma quantidade de maconha que caracterizaria tráfico. Para lembrar: a Lei 11.343 prevê cadeia apenas para o traficante, não para o consumidor. Ocorre que as evidências apontam que, na prática, o preto e pobre vai em cana porque quase sempre é considerado traficante, mesmo quando consumidor; o rico endinheirado se safa porque é quase sempre considerado consumidor, mesmo quando traficante. Será que juízes não devem se ocupar da questão?

Há mais: um certo Plínio Valério (PSDB-AM) não parece estar especialmente preocupado com a tragédia da seca e do desequilíbrio climático que castiga seu Estado. Tem outras ocupações. Quer uma emenda que defina um mandato de oito anos para os membros da Corte. Já escrevi aqui os sobre efeitos deletérios que teria um troço como esse. O atual presidente do Senado, que fala pelo ex, não pensa assim.

Roberto Barroso assumiu o comando do Supremo na quinta, 28 de setembro. Na segunda, 2 de outubro, lá estava o presidente do Senado a anunciar apoio à tese do mandato, como se o Brasil fosse uma dessas sólidas democracias parlamentares europeias. Numa entrevista, engrolou:

"Bom, essa é uma tese que eu já defendi publicamente. Continuo a defender. Acho que seria bom para o Poder Judiciário, para a Suprema Corte do nosso país. Seria bom para a sociedade brasileira termos uma limitação do mandato de ministro do Supremo. Agora que já resolverá a segunda vaga de responsabilidade do presidente Lula, eu acho que preenchida essa vaga, é o momento de nós iniciarmos essa discussão no Senado Federal e buscarmos a elevação da idade mínima para ingresso no Supremo Tribunal Federal, a fixação de mandato na Suprema Corte, no tempo também que dê estabilidade jurídica até pra formação da jurisprudência do país. Essa é uma tese aplicada em outros países do mundo. É uma tese defendida por diversos segmentos, inclusive por ministros e ex-ministros do Supremo Tribunal Federal, e eu acho que é uma tese possível de ser debatida e discutida no Senado Federal".

No dia 27 do mês passado, em sessão garbosamente conduzida por ele, seus pares aprovaram o despudorado projeto de lei, que já havia passado pela Câmara, que define o marco temporal para a demarcação de terras indígenas, além de expor as áreas já demarcadas ao risco de exploração econômica mesmo sem a concordância dos ocupantes originários. O STF já havia decidido, por nove votos a dois, que o marco é inconstitucional. A aberração aprovada consegue ser ainda pior.

NO PAU DE ARARA
Há uma óbvia aliança de bolsonaristas e moristas -- estes especialmente espalhados na imprensa --, organizados e conjurados para atacar o Poder de toga. Afinal, as primeiras condenações pelos atos golpistas estão em curso; todos sabem que Bolsonaro está na fila e que os crimes da dita força-tarefa começam a vir à superfície. Assim, a canalha precisa testar se o ódio que os sectários do dito "Capitão" devotam a pelo menos nove ministros se expande além da bolha. É nessas horas que entram os oportunistas, com suas alianças episódicas.

Alcolumbre é poderoso, influente, mas está longe de ser o rei da popularidade entre os pares. Tenta se garantir com os bolsonaristas porque estes podem dar tração à sua candidatura; com eles, buscará se impor como fato consumado à base aliada. E, no melhor dos mundos, ainda posará de pacificador. Nem precisará de um Rogério Marinho (PL-RN) para vocalizar as pautas dos reaças. Estes, por sua vez, têm a esperança de que um tribunal eventualmente mais enfraquecido possa poupar Bolsonaro. O senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) sonha até com a anistia. Outro dos delírios em voga, que tem um deputado como porta-voz — Domingos Sávio (PL-MG) — é transformar o Congresso em instância revisora do Supremo...

AINDA FALTA ARTHUR LIRA
O presidente da Câmara, que prefere terçar armas com o Executivo, não com o Judiciário, se disse contrário à tese do mandato. Disse que aceita debater a limitação de decisões monocráticas, mas não mandato. Discursou nesta quarta em homenagem aos 35 anos da Constituição. Afirmou:

"A Constituição passou por várias emendas, mas preservou, lógico!, a sua essência. É útil, é pioneira e é desbravadora. Ilumina, ainda hoje, os caminhos por onde cada um dos integrantes deste Parlamento pode trilhar. Estabelece as balizas que delimitam o campo de ação de cada um dos Poderes do Estado, e é importante, sempre, que nós saibamos nos conter, cada Poder desta nação nos seus limites constitucionais. E eu tenho absolutamente certeza de que o Parlamento brasileiro os obedece, os cultiva e os respeita"

Não me parece, à diferença do que se tem dito por aí, que esteja, ele também, "mandando recados" ao Judiciário. De saída, rechaça a bobagem do "Congresso como revisor do STF". E já se sabe que não está disposto a flertar com mandatos para ministros. O que estou dizendo, meus caros, é que, dado o surto que toma o Senado, com as ambições fora do controle, o presidente da Câmara surge, na comparação ao menos, como um pacificador. E isso só chama a atenção para a figura de Pacheco como aquele destinado a ser o que efetivamente não foi. Ou que não foi o que poderia ter sido.

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

35 anos de Constituição e democracia


Exemplar da Constitução — Foto: Daniel Marenco

‘Não é a Constituição perfeita, mas será útil, pioneira, desbravadora, será luz, ainda que de lamparina, na noite dos desgraçados.’ A frase de Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Nacional Constituinte, no discurso proferido em 5 de outubro de 1988, dia da promulgação da Constituição, não poderia ter sido mais realista ou mais profética. Nossa lei fundamental, que agora completa 35 anos, serviu de alicerce ao período democrático mais longo na História do país. Criada depois do fim da ditadura militar, estabeleceu regras, mecanismos e instituições que têm garantido a democracia. E resistiu com louvor a seu maior desafio, a tentativa de golpe de Estado que culminou no ataque às sedes dos três Poderes em 8 de janeiro.

A ênfase do texto constitucional nos direitos do cidadão, especialmente em saúde, educação e na área social, sustentou uma transformação social. Ao longo de três décadas e meia, a expectativa de vida saltou de 65 para 73,6 anos, mais rápido que a média mundial. Em 1988, um quinto da população acima de 15 anos era analfabeta, e 5 milhões com menos de 14 estavam fora da escola. Hoje o analfabetismo está em 5,6%, e os sem escola não chegam a 250 mil. Há muito a fazer ainda no campo social, mas o avanço é inegável.

A principal conquista foi a consolidação da democracia expressa nos direitos fundamentais: igualdade perante a lei, voto secreto e universal, liberdade de expressão, associação e participação política, além de todas as demais garantias gravadas em cláusulas pétreas.

A Constituição foi elaborada num momento ímpar, por um grupo que incluía notáveis como Affonso Arinos, Delfim Netto, Fernando Henrique Cardoso, Florestan Fernandes, Jarbas Passarinho, José Serra, Luiz Inácio Lula da Silva, Mário Covas, Nelson Jobim, Nélson Carneiro, Roberto Campos, Roberto Freire ou o próprio Ulysses. O principal desafio era erguer um arcabouço institucional duradouro depois da ditadura. Nisso, cada novo aniversário da Carta é prova de seu êxito.

A qualidade dos constituintes, porém, não impediu que cometessem erros. Um dos principais foi o excesso de minúcias, origem do engessamento da gestão pública. A Carta trata de toda sorte de tema: sistemas econômico, tributário, previdenciário, educação, saúde, meio ambiente, cultura, comunidades indígenas, família, criança, adolescente, idoso etc. Com quase 65 mil palavras ao ser promulgada, é a terceira Constituição mais longa do mundo. Muitas vezes os constituintes não se preocuparam com o custo financeiro dos direitos criados, gerando uma conta que a sociedade pena para pagar.

Desde 1988, os parlamentares emendaram a Constituição 143 vezes, incluindo uma revisão em 1994 e a incorporação de tratados internacionais. No ano passado, bateram o recorde, com 14 emendas. É bom que a própria Constituição traga mecanismos para se corrigir, mas o saldo das modificações nem sempre foi positivo. Os 35 anos da Carta são mais uma oportunidade para o país e o Congresso refletirem sobre nossas prioridades.

Eliminar barreiras à geração de riqueza, reduzir a desigualdade, educar e desenvolver o país, assegurar condições de vida e saúde — tais objetivos poderão depender de mudanças constitucionais. O que não poderá mudar — em nenhuma circunstância — são os direitos fundamentais que alicerçam a democracia e que, cumprindo a profecia de Ulysses, deverão continuar a iluminar o Brasil nas próximas décadas.

Supremo decide revolucionar prisões e o país dá de ombros



Na primeira sessão presidida por Luís Roberto Barroso, o Supremo Tribunal Federal formou maioria para impor a Lula uma providência urgente e revolucionária. O governo terá seis meses para apresentar um plano capaz de resolver em três anos as mazelas do sistema prisional brasileiro. O Brasil deu de ombros para a decisão, já referendada por sete ministros. Deve-se o desinteresse à percepção de que o Supremo roda um filme repetido, que não tem final feliz.

Analisa-se uma ação protocolada em 2015 pelo PSOL. O relator na época era Marco Aurélio Mello, já aposentado. Em decisão liminar (temporária), o Supremo já havia declarado que prevalecia nas masmorras brasileiras um "estado de coisas inconstitucional". Iniciado em 2021, o julgamento do mérito da ação foi interrompido por um pedido de vista de Barroso. Decorridos dois anos, o próprio Barroso devolveu a encrenca ao plenário.

Nos oito anos de tramitação da ação do PSOL, o que era anticonstitucional tornou-se uma bagunça institucionalizada, pois as prisões brasileiras só pioraram desde que o Supremo expediu sua liminar. Barroso repetiu em seu voto velhas conclusões. Disse que o caos carcerário "compromete a capacidade do sistema de cumprir seus fins de ressocialização dos presos e de garantia da segurança pública."

A novidade é a ordem para a elaboração de um plano, com a participação do Conselho Nacional de Justiça e posterior homologação do próprio Supremo.

A discussão sobre a "humanização" das prisões é coisa do século 18. O debate sobre "ressocialização" dos criminosos ganhou força no final do século 19. Atrasado em mais de um século, o Brasil roda em torno do problema como parafuso espanado.

Não há no país pena de morte nem prisão perpétua. Os presos estão condenados à liberdade. Qualquer zoológico oferece estadia mais decente do que as cadeias. Tratados como sub-bicho, os presos ganham as ruas como feras.

Diagnóstico feito pelo TCU em janeiro de 2003, quando Lula inaugurava em Brasília o seu primeiro mandato, informou que sete em cada 10 presos brasileiros eram reincidentes. Decorridos 20 anos, o Supremo dá ao mesmo Lula três anos para resolver a encrenca. Convém puxar uma cadeira. Ou um ronco.

Ministro '10%' concede 100% de blindagem para Silvinei Vasques



Bolsonaro indicou André Mendonça e Nunes Marques para o STFImagem: Foto: Isac Nóbrega/PR


A Constituição exige dos ministros do Supremo notório saber jurídico e reputação ilibada. Bolsonaro adotou critério pessoal. "Tem que tomar tubaína comigo." Ao presentear Nunes Marques com uma toga, tratou futuras sentenças como gorjeta. "Será 10% de mim dentro do Supremo". Foi modesto na conta. Em despacho individual, o magistrado forneceu 100% de blindagem ao bolsonarista Silvinei Vasques.

Com uma canetada, Nunes Marques derrubou decisão colegiada da CPI do Golpe, que havia quebrado os sigilos fiscal, bancário, telefônico e telemático do ex-chefe da Polícia Rodoviária Federal. Deu de ombros para o texto constitucional, que atribui às CPIs poderes de investigação próprios das autoridades judiciais.

Alegou que a comissão agiu de forma "genérica", sem uma "prévia definição do escopo específico para a quebra do sigilo" de Silvinei. Insinuou que os parlamentares lançaram a rede como se realizassem "fishing expeditions". Importado da língua inglesa para o vocabulário jurídico nacional, o termo define o que se convencionou chamar de "pescaria probatória".

Admita-se que Nunes Marques ruminasse a sério a suspeita de que a CPI, sem dispor de indícios contra Silvinei, buscasse numa pescaria aleatória subsídios para uma apuração infrutífera. Nessa hipótese, antes de blindar o investigado, o ministro "10%" talvez pudesse conversar informalmente com Alexandre de Moraes, para saber por que o colega mantém Silvinei em cana desde 9 de agosto.

Em julho, o ministro Luís Roberto Barroso, hoje presidente do Supremo, concedera 48 horas à CPI para explicar a quebra dos sigilos de Silvinei. Informado sobre as motivações, absteve-se de anular a providência. Agora, a CPI acionou a advocacia do Senado para recorrer contra a blindagem fornecida por Nunes Marques.

A tubaína parece ter subido à cabeça das togas de estimação de Bolsonaro. André Mendonça, terrivelmente vinculado ao evangelho do ex-mito, já havia autorizado o tenente Osmar Crivelatti, assessor de Bolsonaro, a ignorar convocação para depor na CPI.

Nunes Marques concedera a Marília Alencar, ex-diretora de Inteligência do Ministério da Justiça na gestão de Anderson Torres, o mesmo salvo-conduto para dar uma banana à convocação da CPI. Em depoimento à PF, Marília já admitiu ter elaborado um mapeamento para identificar as cidades onde Lula obteve mais votos no primeiro turno de 2022. O estudo norteou no dia da eleição em segundo turno o bloqueio de eleitores que Silvinei ordenou à Polícia Rodoviária.

O Supremo precisa providenciar decisões colegiadas para substituir os despachos individuais dos ministros bolsonaristas. Quanto à CPI, não cabe outra providência senão uma reação à altura. Sob pena de o Legislativo ser condenado a convocar uma CPI para investigar a desmoralização das comissões parlamentares de inquérito