Ricardo Noblat
Estamos de acordo que a ditadura, seja ela de esquerda ou de direita, é o
mais abominável dos regimes. Impede a liberdade de pensamento e de expressão.
Suspende as garantias individuais. Sufoca ou elimina os poderes
anteriormente constituídos.
Minha geração viveu 21 anos sob uma ditadura. Não desejo a ninguém que passe
pela mesma experiência.
Depois da ditadura, creio que o mais nocivo dos regimes seja a ditadura da
maioria. Ela parece uma democracia porque funcionam todos os poderes que
caracterizam uma democracia. Mas não é porque carece do respeito às minorias e
às opiniões discordantes.
Esse tipo de regime não busca a equidade e a justiça. Eis seu maior
defeito.
Quando havia escravidão no Brasil é bem possível que a maioria da população a
apoiasse. Como a maioria dos norte-americanos durante séculos apoiou a
discriminação racial.
Aqui e lá a maioria estava certa?
A maioria dos brasileiros é contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. E
contra o aborto - liberado em outros países. Ela está certa?
Fomos contrários ao divórcio durante quantos anos mesmo?
Os nazistas chegaram ao poder na Alemanha disputando eleições. Isso quer
dizer: legitimamente. Uma vez no poder, com o apoio da maioria, implantaram uma
das piores e mais cruéis ditaduras que o mundo conheceu.
Dilma conta no Congresso com o apoio de uma folgada maioria de votos. Nem
assim ela pode fazer tudo o que quer. Sua maioria não se mantém amalgada por
idéias e objetivos - apenas por conveniências. E por isso mesmo custa caro.
Mas muitas coisas Dilma pode fazer, sim - como fez Lula por dispor de maioria
e, antes dele, Fernando Henrique. Uma delas: impedir o comparecimento ao
Congresso de ministros metidos em apuros. Em casos assim, a ditadura da maioria
se manifesta. E provoca estragos na democracia.
Dilma ordenou: Fernando Pimentel, ministro do Desenvolvimento, enrolado com
consultorias nada ortodoxas, não deve espontâneamente ir se explicar no
Congresso.
Se convidado a fazê-lo, não compareça. Se convocado, dê um jeito de protelar
sua ida.
Esgotados todos os recursos, que a maioria favorável ao governo o acolha com
carinho e impeça de qualquer maneira que responda a perguntas consideradas
embaraçosas.
Não entendo a ordem de Dilma - a não ser como falta de respeito ao direito da
minoria, interessada em cobrar explicações de Pimentel.
Alguns dos ministros caídos desde janeiro último depuseram no Congresso. E se
defenderam de suspeitas. Por que com Pimentel tem de ser diferente?
Ele se diz "tranquilíssimo". E mesmo que estivesse em pânico uma coisa nada
tem a ver com a outra.
O estado de espírito do ministro não está em questão. Está a história mal
contada de sua consultoria. Quem sabe ele não poderá contá-la melhor?
Não me interessa se a maioria dos cidadãos deste país pouco está se lixando
para o episódio protagonizado por Pimentel. E que não veja a hora de dar e
receber presentes, celebrar a chegada do Ano Novo, sair de férias e pegar um
bronze para depois brincar o carnaval.
O episódio me interessa. Imagino que interesse a mais alguns gatos pingados.
E nós temos o direito, via nossos representantes no Congresso, de inquirir
Pimentel.
Trata-se do mesmo direito que assegura às minorias a instalação de Comissões
Parlamentares de Inquérito.
Dilma carrega na alma as cicatrizes do desrespeito aos direitos das minorias.
Como mulher foi discriminada muitas vezes. Como comunista foi perseguida, presa
e torturada.
Ter sido promovida à condição de maioria não lhe confere passe livre para o
exercício da intolerância.
Clóvis a mim também interessa as explicações desse surrupiador, espoliador de cofre público, intermediador de papo furado que em um simples telefonema de influência ganha milhões e em detrimento da maioria. Mas como desejo sempre, que estes valores tomados, assaltados lhe sirvam para o tornar muito infeliz. De hoje em diante, até a a Presidente Dilma o demita, passarei a chamá-la simplesmente de dilminha, pois manter um elemento, um individuo deste no governo me impõe não lhe dever respeito algum.
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