
O Ministério do “Veja bem”, que reúne os principais auxiliares do presidente escalados para corrigir as declarações polêmicas que ele costuma fazer, terá muito trabalho se quiser explicar o que Bolsonaro disse quando falou em demitir o superintendente da Polícia Federal no Rio para proteger sua família e seus amigos.
De outra parte, trabalho insano terá o Procurador-Geral da República Augusto Aras para justificar por que arquivará o processo aberto a seu pedido contra o presidente. No momento, a tendência de Aras é recomendar ao ministro Celso de Mello que impeça a divulgação na íntegra do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril último.
O vídeo tornou-se tão mortal para Bolsonaro e o governo quanto o coronavírus que já matou até ontem 12.400 brasileiros e contaminou 177.589. Gripezinha forte, essa. Seu poder de devastação está para o ser humano assim como o poder de devastação do vídeo está para o presidente da República, a ver-se em breve.
Poderá dizer o Ministério do “Veja bem”: quando Bolsonaro afirmou que precisava no Rio de um superintendente da Polícia Federal que protegesse sua família, referia-se à “família brasileira”, não a dele. Como presidente, ele é o chefe da família brasileira, assim como é, por exemplo, o chefe das Forças Armadas.
Não. Difícil de colar! Como não cola a desculpa de que Bolsonaro, em momento algum da reunião, referiu-se à Polícia Federal e ao superintendente do Rio. Referiu-se à “segurança” no Rio dele e de sua família. Não estava satisfeito com ela. Pretendia trocá-la e. por isso, falou o que foi registrado. Está bem assim?
Não, não está. Da segurança de Bolsonaro e da sua família cuida o Gabinete de Segurança Institucional da presidência da República, não a Polícia Federal. Então a crise desatada por Bolsonaro deveria ter resultado na demissão do general Augusto Heleno, ministro responsável pelo gabinete. E resultou em quê?
Na demissão do diretor-geral da Polícia Federal, que desde de agosto do ano passado, Bolsonaro queria ver pelas costas. Na demissão do ministro Sérgio Moro, da Justiça. E na substituição do superintendente da Polícia Federal no Rio. O Ministério do “Veja bem” deveria pensar melhor e arranjar outra desculpa.
Desde já, deveria providenciar outra para a resposta dada por Bolsonaro à pergunta que um repórter lhe fez se concordaria com a divulgação do vídeo na íntegra. A pergunta tinha cabimento. Há duas semanas, foi o próprio Bolsonaro que revelou que mandara legendar o vídeo para que fosse divulgado sem cortes.
Mudou de opinião. Agora, disse que só deveriam ser divulgados os trechos ligados à acusação de que quis intervir politicamente na Polícia Federal. O resto, que fosse destruído. Mas destruído por quê? Para que o distinto público não se envergonhe do presidente que elegeu? Nem do governo que ele montou?
Se o famoso telefonema de Dilma para Lula, gravado para além do tempo que Moro estabelecera para que fosse gravado, acabou divulgado mesmo assim e acabou dando no que deu, por que censurar o vídeo da reunião ministerial comandada por Bolsonaro que certamente entrará para a história do país?
O povo tem o direito de saber.
Por Ricardo Noblat
A nova política deixou de ser nova e voltou a ser a antiga comandada pelo Centrão. O toma lá dá cá é a verdade que mantém todos de rabos presos. As milhares de mortes pelo covid-19, e daí? A economia indo para o buraco, e daí? O grande amigo e ministro de ontem é o inimigo de hoje, e daí?
ResponderExcluirA grande maioria dos eleitores que votaram no Mito assim procederam porque acreditaram nas promessas dele. Se não percebem que estão sendo traídos por aquele Mito das promessas, hoje um ex-fervoroso crente de que "só a verdade liberta"; se não percebem ou não querem perceber que o Mito está à cada dia levando o Brasil à baderna infernal, a um passo da fome, choros e ranger de dentes de norte a sul e de leste a oeste; que não sentem que estão sendo moralmente esfaqueados pelas costas; então, a situação é mais do que crítica, além de hospitais apinhados por infectados pelo covid-19, o Brasil também está sendo transformado em um manicômio - isso, sim, a grande e mitológica obra do Mito.